A segurança personifica um dos pilares básicos da organização de uma sociedade, constituido-se o “sentimento de segurança” como necessidade imanente para o bem-estar individual e coletivo.

O conceito de Segurança é extremamente abrangente, alcançando para além das questões relacionadas com formas de criminalidade mais ou menos complexa e/ou violenta. De facto engloba toda uma panóplia de áreas fundamentais como a segurança alimentar e ambiental, os cuidados de saúde ou a resposta a catástrofes naturais. Não menos importante é a questão da segurança relativamente a padrões de qualidade de vida satisfatórios.

O atual momento político-económico nacional, pautado pela austeridade, é reflexo de décadas de despesismo público e de ausência de estratégia, sendo de alguma forma potenciado pelo contexto internacional em que se insere, modelado pela instabilidade, e em que os fins do Estado foram lenta e gradualmente submergidos pelos interesses de grupos ligados à especulação. Ainda assim, as consequências diretas sobre a população são a cada dia mais marcantes, conduzindo famílias ao desespero.

Sociologicamente o povo português pauta-se pelo seu caráter “resiliente”, não reagindo, por tradição, de forma violenta às decisões políticas ou aos escândalos públicos. Tais situações são encaradas como “fatalidades” inerentes à nossa sociedade e relativamente às quais o cidadão adota uma atitude de conformismo. Porém, tal resignação não corresponde forçosamente a um alheamento da realidade. À medida que o cerco se vai apertando, com uma percentagem cada vez mais expressiva da população a debater-se com o constante emagrecimento do seu orçamento familiar, vivendo sob a ameaça de fantasmas como a prestação da casa, a qualidade da educação dos filhos ou, em demasiados casos, a dura realidade do desemprego, os sinais de revolta vão surgindo.

De facto, a extrema precariedade com que demasiadas famílias se debatem, gera lenta mas concisamente, um sentimento de “raiva silenciosa”, o qual é alimentado pelas notícias diárias. O crescente sentimento de injustiça que se vem instalando, ficando cada vez mais claro que os sacrifícios não são equitativos, evidencia um clientelismo de Estado cujos custos se estão a tornar insustentáveis para a sociedade.

Esse sentimento generalizado de injustiça, se devidamente potenciado por agitadores organizados, poderá a breve trecho originar tumultos sociais de consequências imprevisíveis e cujas feridas levarão décadas a sarar.

Importa realçar que a classe mais diretamente atingida neste momento é a denominada classe média, cuja massa humana é constituída por gente com

instrução superior, capacidade critica e acesso a informação e meios técnicos que a tornam melhor habilitada para planear e agir. Os movimentos ligados à subversão informática têm a sua génese nesta classe social.

A mobilização por via digital pode acordar o gigante adormecido, conduzindo à sublevação social conforme ocorreu, embora por razões diversas, na génese da Primavera Árabe. O aproveitamento do momento certo poderá acionar o rastilho que faça eclodir tumultos sociais.

Por fim, não se pode ignorar a comunidade imigrante, uma fatia relevante do nosso tecido social, onde se congregam caraterísticas distintas, conforme os povos de origem, mas onde se identificam facilmente indivíduos com menor capacidade de permanecer no seio do “laço social” face a situações de privação que começam, em demasiados casos, a atingir o limite do insustentável.

A capacidade de resiliência da população nacional está a ser posta à prova de uma forma extrema.

Exige-se pois do poder político rigor, transparência e bom senso. Seria mais fácil aceitar determinadas medidas, que serão necessárias na atual conjuntura, se a população sentisse que todos, mas mesmo todos, estavam a contribuir para o esforço comum e que existe uma estratégia definida e clara para recuperar economicamente o país, garantindo os direitos mínimos dos cidadãos e a igualdade de tratamento por parte do aparelho de Estado, que até à data ainda não se vislumbrou.

Conforme Jorge Soros, “uma sociedade hedonista não gosta de encarar verdades desagradáveis.” Não existem modelos perfeitos, o Estado de Direito Democrático, muito por força da atual conjuntura, terá de aceitar que é primordial alterar o status quo. Impõem-se a criação de fórmulas, na sociedade aberta e global, que permitam alterar as “velhas” regras, pondo termo ao atual quadro de “fatalidade” e permitindo identificar e responsabilizar todos os intervenientes. Tais regras, mais do que inscritas num código, deveriam ser consequência prática da educação para a cidadania.

A sociedade civil tem vindo a fazer a sua parte, aquilatando as decisões políticas e sofrendo em silêncio as desigualdades. Compete ao Estado exercer o seu papel moralizador, atuando como pessoa de bem, e evidenciando que o é de facto, deixando de viver acima das nossas possibilidades.

André Inácio

 

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