Nas últimas semanas Moçambique constituiu assunto dos meios de comunicação social, em particular dos portugueses, pelas piores razões. Notícias muito preocupantes relacionadas com o agravamento do conflito com o partido RENAMO, na oposição e com um aparente surto de criminalidade grave contra estrangeiros, substituíram as notícias, bem mais positivas, relacionadas com o crescimento económico, com a descoberta de novos recursos naturais e com o crescimento da imigração portuguesa e internacional.
A situação envolvendo a RENAMO e o seu líder, Afonso Dhlakama, bem como a questão da criminalidade em geral e dos raptos de cidadãos portugueses em particular, pareciam transformar a imagem internacional de um país, continuamente descrito de forma muito positiva, em mais um Estado africano em situação confusa.
No entanto, mais do que o alarmismo suscitado pelas notícias difundidas e as pelas vozes dos arautos da desgraça, que se apressaram a destacar o “caos” securitário em que o país poderia cair, a forma como, nos últimos dias, decorreram as eleições autárquicas em Moçambique constituiu o verdadeiro barómetro do pulsar democrático do país e da consciência do povo moçambicano. Os poucos incidentes ocorridos foram resolvidos com eficácia e em nada afectaram o acto eleitoral.
Epifenómenos de criminalidade, mais ou menos violenta, ocorrem em todos os países e Moçambique não é excepção mas, tal apenas significa que as autoridades moçambicanas terão de lidar com as pressões socioeconómicas, evitando que a situação degenere no sentido do crescimento da criminalidade, e de continuar o processo de reforma estrutural e de capacitação dos seus serviços e forças de segurança e das suas forças armadas. Essa capacitação é fundamental para fazer face a essas e a outras ameaças, algumas delas novas e de cariz mais estratégico, resultado do crescimento económico e da nova atractividade do país.
A situação da RENAMO, sendo muito importante, é, em grande medida, uma questão histórica que tem de ser tratada com o cuidado que exigem problemas antigos e profundos, mas apenas isso. O que uma democracia, já com um certo grau de consolidação como é a Moçambicana, terá cada vez mais dificuldade em admitir é a existência de exércitos, milícias ou unidades de segurança armada ao serviço de movimentos e partidos políticos, sobretudo se esses meios forem usados para, de forma totalmente antidemocrática, exercerem pressão ou chantagem sobre as autoridades nacionais, regionais ou locais de um país.
Acresce que os recentes resultados eleitorais parecem demonstrar, com a aparente vitória da FRELIMO na província da Gorongosa e a consolidação dos resultados do MDM, nessa província e no centro do país, que as tradicionais assunções relativas às bases de apoio eleitoral dos diferentes partidos estarão a ser postas em causa.
Estas eleições vieram demonstrar que Moçambique, com todos os desafios e dificuldades que existirão e serão cíclicos, é um país que se encontra preparado para enfrentar o futuro, em particular o próximo ano, muito importante em termos eleitorais, e continuar a apresentar-se com um prognóstico muito optimista de crescimento e desenvolvimento.

Sebastião de Carvalho e Melo

 

 

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