Após 95 de anos de vida, 27 dos quais passados na prisão, a personalidade mais consensual de todo o sempre, admirada por todos, da esquerda à direita, aclamado por pessoas de todas as raças e culturas, reconhecido pelos quatro cantos do mundo, partiu. Nelson Mandela, líder histórico da transição do Apartheid para democratização na África do Sul, deixa um legado, muito dificilmente igualável, de respeito pelos direitos humanos, pela crença de que todos os Homens nascem iguais, e como iguais deverão ser tratados perante a lei e a justiça. Sobretudo, facultou-nos uma lição de como a vingança não é o caminho a ser seguido quando, o que se pretende, é promover a paz e a liberdade.

Em 95 anos de vida, há lugar para desenvolver diversos tipos de comportamentos. Constroem-se, por inerência na natureza humana, qualidades e defeitos. A ingenuidade da juventude, por vezes, levam qualquer um a cometer excessos. Os dogmas ideológicos, invariavelmente, transportam-nos para uma realidade paralela, de crença numa via única e desprovida de imperfeições. A teorização de regimes de cariz vanguardista, independentemente da orientação, toldam o pensamento e, no curto prazo, provocam o esvaziamento do sentido crítico perante as circunstâncias. É verdade. Mandela, num determinado período da sua vida, totalmente tomada pela acção política, abraçou a via armada e o desejo de construir, na África do Sul, um sistema de sinal contrário ao indecoroso Apartheid, mas não menos castrador das liberdades cívicas e políticas. No entanto, não pode deixar de ser elogiado o facto de Madiba ter abandonado o terrorismo, quando muitos dos seus Compagnons de Route o queriam perpetuar, e haver lutado pelo caminho da pacífica convivência entre os cidadãos sul-africanos, qualquer que fosse a raça ou condição social. Dai sempre ter recusado o rótulo de santo.

Em 1964, durante a sessão de julgamento que o condenou à prisão perpétua, Mandela proferiu as seguintes palavras “ Durante toda a minha vida, tenho-me dedicado a esta luta do povo africano. Tenho lutado contra a dominação branca, e contra a dominação negra. Tenho acalentado o ideal de uma sociedade democrática e livre em que todas as pessoas possam viver juntas, em harmonia e com oportunidades iguais (…)” (Nelson Mandela cit. por João Carlos Silva, edição especial revista Sábado 8 de Dezembro 2013.)

Fica assim documentado que, ainda antes do longo tempo que passou atrás das grades, Mandela já tinha como pretensão a coexistência pacífica entre brancos e negros.

Alguns críticos, aqueles que não concebem que um processo de democratização não tenha associado um vasto programa económico do tipo Robin Wood, acusam Mandela de, já enquanto presidente, não ter atenuado as desigualdades e proporcionado aos pobres a prosperidade que sempre lhes foi negada. Aquando das eleições presidenciais de 1994, Nelson Mandela avisou “Não esperem poder conduzir um Mercedes no dia a seguir à eleições ou nadar na vossa própria piscina nas traseiras.”(ibid) O papel a que se propôs Nelson Mandela não foi de reformador económico, mas de promotor da liberdade.

Pedro Castello Branco

 

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