A semana que agora acaba, no que toca ao circo mediático, concentrou todas a atenções em França. Aquele que, na campanha eleitoral para as presidenciais francesas de 2012, se apresentou ao eleitorado como o candidato que, uma vez eleito, seria “ o Presidente normal “, marcando, desde logo, uma clara contraposição à suposta anormalidade do opositor Nicolas Sarkozy e à sua incipiente vida privada, foi apanhado na curva.

Hollande, quando leu a imprensa cor-de-rosa no passado fim-de-semana, deu de caras com uma fotografia captada por um paparazzi que confirma que o Presidente francês estava envolvido num caso extraconjugal. Não deixa de espantar todo o alarido feito pela comunicação social gaulesa. Por muitos defeitos que tenham, os países latinos, de maioria católica, não consideram que os assuntos de domínio privado dos políticos devam ser expostos e comentados na praça pública como se de uma opção programática se tratasse. Em oposição, as nações de maioria protestante, com destaque para EUA e Reino Unido, alimentam estes casos até à saturação. Recorde-se o que se passou com Bill Clinton, no final dos anos 90, quando foi descoberto que mantinha um relação com uma estagiária da Casa Branca. Na altura, inclusivamente, não foram poucos os americanos que pediram o impeachement visto que, numa primeira fase, Clinton mentiu em público quando negou o affair.

Dois dias após a publicação da notícia do foro privado, François Hollande concedeu uma conferência de imprensa onde apresentou uma nova orientação económica para 2014. De imediato, a esquerda cunhou Hollande como neoliberal. Observando as propostas enunciadas, poderá dizer-se que, como muito bem escreveu Henrique Raposo no Expresso, o socialismo francês irá abraçar a social-democracia alemã. Nunca é demais relembrar que as reformas que hoje permitem à Alemanha gozar de uma economia pujante, bem como um Estado Social sustentável, foram concretizadas por uma coligação de esquerda. Sim, porque o facto de um político ter a intenção de reduzir a despesa pública, flexibilizar o mercado laboral, eliminar contribuições fiscais e agilizar a burocracia não se torna, de forma automática, num liberal. A serem concretizadas as ideias, o líder do Eliseu pretende modernizar a máquina estatal, governar de acordo com os desafios da globalização (palavra maldita em França) e deixar respirar o sufocado sector privado.

Porém, não sendo, nem de perto nem de longe, um liberal, Hollande, no decorrer na conferencia, teve uma tirada liberal. Argumentando que a despesa pública atingira níveis incomportáveis, afirmou que terá que se actuar do lado da oferta porque, como teorizou o economista francês Jean-Baptiste Say no princípio do século XIX “ A oferta cria a sua própria procura…”.

Pedro Castello Branco

 

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