No próximo mês de Julho completam-se 100 anos do inicio da Primeira Guerra Mundial. Tratou-se do primeiro conflito travado à escala global, que influenciou, substancialmente, o destino dos impérios participantes.

Com grande probabilidade, a maioria dos leitores não conseguirá associar o nome Sir Robert Crawley. Na verdade, esse nome não corresponde a ninguém do mundo real. Trata-se da personagem protagonizada pelo actor inglês Hugh Bonneville na aclamada série britânica Downton Abbey. Para quem não acompanha a trama, Downton Abbey retrata a vida da aristocrata família Crawley, principal latifundiária da localidade de Yorkshire,  nas primeiras décadas no século XX. Na realidade, salvo melhor opinião, a série tem por objectivo ilustrar a complexidade que consistiu para a velha e tradicional aristocracia britânica a mudança na ordem socioeconómica que ocorreu no principio no século passado, com destaque para o estrondo provocado pela Primeira Grande Guerra. Sir Robert Crawley, Conde de Grantham, é o porta-estandarte da resistência à mudança, devidamente coadjuvado pelo mordomo Carson.

Por mais evidentes que fossem as necessidades de mudança de mentalidade, de forma a enfrentar os desafios trazidos pela guerra, onde se desintegraram impérios centenários e se assistiu, timidamente, às primeiras tentativas de descolonização, o Conde Grantham persistia em não querer reagir à inevitável chegada da modernidade. Habituado que estava a  gerir a vasta propriedade, que dá nome à série, de maneira antiquada, incorreu numa negação da nova ordem.

Os sábios conselhos do genro Mathew Crawley, jovem advogado oriundo de uma realidade mais urbana, elucidaram o patriarca da família que, continuando a percorrer o caminho  contrário à adaptação ao novo mundo, mais tarde ou mais cedo, o  ponto de chegada seria a ruina financeira e consequente perda de Downton Abbey.

Segundo muitos filósofos políticos e historiadores das ideias, é precisamente aqui que reside o segredo inglês. Quando se exige a mudança, ela é feita de forma gradual, sustentada em consensos, e o processo é conduzido de forma a que os extremos não venham à tona. Uma coligação entre tradição e mudança é bandeira de proa em Inglaterra.  Enquanto que os impérios Alemão, Otomano, Austro-húngaro e Russo foram desmembrados com elevadíssimos índices de violência, visto que sempre optaram, através de uma profunda centralização do poder, por coagir as populações a obedecer a uma via única, pela Velha Albion, numa deriva herdada da Revolução Gloriosa de 1688, a tradição de liberdade levou a melhor sobre uma qualquer revolução de matriz vanguardista.

 

Pedro Castello Branco

 

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