Em plena crise, o Brasil, um país de economia emergente e prometedor, atinge o maior deficit comercial da sua história. Em Janeiro, o comércio deste país sul-americano registou um défice de 4.057 mil milhões de dólares, confirmando a tendência já apontada no final do ano passado. Apesar de ter superado o recorde que datava de Janeiro de 2013, com 4.035 mil milhões dólares, o saldo negativo do mês passado, anunciado pelo Ministério do Comércio, ficou abaixo das expectativas dos analistas, que esperavam um valor de 4,6 mil milhões de dólares.
O aumento das exportações de matérias-primas não foi suficiente para compensar as importações maciças de bens de consumo que acompanham o pedido das famílias e das empresas. O real tem vindo a desvalorizar, face ao dólar, e, no início do mês de Fevereiro, atingiu um mínimo de 2,44, mas a medida ainda não se fez sentir nas exportações. “Nós ainda estamos a observar o impacto da desvalorização da moeda brasileira, que ocorreu no ano passado. Estamos à espera”, afirma David Beker, do Bank of America Merrill Lynch.

A balança comercial é um factor de grande importância para o equilíbrio financeiro de qualquer país e o Brasil não é excepção. O Brasil tenta, por um lado, contrariar o declínio da procura nos mercados externos, devido às persistentes dificuldades da economia mundial, especialmente de alguns países vizinhos, como é o caso da Venezuela e Argentina, e, por outro, a baixa produtividade das suas empresas de manufactura estão a tornar os seus produtos menos competitivos, quando confrontados com os principais concorrentes internacionais. No mês passado, as exportações de matérias-primas aumentaram 5,3%, numa base anual, enquanto as de produtos semi-acabados e acabados caíram dos 5,8% para os 2,6%. Estes valores contrastam com o crescimento das importações, que registaram um aumento de 8% em bens de consumo, e de 7,1% em bens capitais.

O deficit sentido em Janeiro é apenas o mais recente sinal de alarme para o Brasil, depois de um ano de números negativos nas transacções com o estrangeiro. Em 2013, o país registou o pior saldo da balança de transacções dos últimos 13 anos, o primeiro declínio em 10 anos na venda de carros e o maior fluxo líquido na saída de dólares desde 2002.
A moeda brasileira desvalorizou 18% no ano passado, oferecendo ao país, como solicitado pelo próprio governo, uma taxa de câmbio mais competitiva. Mas isso não foi suficiente para contrariar os efeitos da política monetária expansionista da Reserva Federal dos EUA (FED), contra a qual o Brasil, desde o inicio, tem sido um duro opositor, tentado minimizar os efeitos nefastos do “tapering”(redução do programa de estímulos da FED americana na sua economia).
O Banco Central do Brasil já tomou medidas em relação às taxas de juros, elevando-as para 10,5%, em meados de Janeiro, procurando, assim, diminuir o consumo das famílias e controlar a inflação, a qual se está a aproximar de um tecto de 6,5% estabelecido pelo governo. O Brasil parece querer controlar as contas públicas mais pelo lado das importações, diminuindo-as, do que pelas exportações, desvalorizando fortemente o real.

Mas nem tudo é matemático e a economia brasileira desacelerou e o Fundo Monetário Internacional acaba de rever, em baixa, as suas previsões de crescimento do PIB Brasileiro, levando-as para 2,3%, em 2014, e 2,8%, para o próximo ano. Em Brasília já são muitos os que agora pensam que apenas uma recuperação sólida dos Estados Unidos e da Europa será capaz de restaurar a força das exportações brasileiras e, consequentemente, a sua economia.

Ana Sousa

 

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