Desde que se consumou, há 15 dias atrás, a previsível expulsão de António Capucho de militante do PSD, depois de violar um estatuto básico de funcionamento de uma qualquer força partidária, que o visado se tem desdobrado em entrevistas e declarações à comunicação social. Capucho lamenta que tenha sido alvo de um processo de perseguição política, motivado pela dissidência da actual direcção que, segundo Capucho, iniciou uma revolução interna que coloca em causa a matriz social-democrata do PSD. Não houve, com segurança, jornal de referência ou estação televisiva que não tenha entrevistado Capucho acerca do processo que culminou na expulsão (auto-expulsão?) que, ao contrário do que propaga a generalidade das figuras que opinam sobre o caso, começou bastante antes da candidatura autárquica numa lista rival do PSD.

Façamos um recuo no tempo. Em Março de 2010, após a demissão de Manuela Ferreira Leite de líder do partido, apareceram três candidatos à liderança do PSD, todos eles diferentes, com ideias pouco convergentes e percursos políticos contrastantes.

Pedro Passos Coelho, homem considerado do aparelho e ex-líder da JSD, apresentou uma candidatura que prometia, quando chegar a primeiro-ministro, mudar o modelo de desenvolvimento do país, executar uma política não socialista e muito mais virada para o mercado e para a liberdade de escolha dos cidadãos.

Paulo Rangel, tendo como mandatário o próprio Capucho, surge como candidato (quando, uns meses antes, enquanto cabeça-de-lista pelo PSD às europeias, prometa nunca o fazer…) com um programa claramente oposto ao dos socialistas mas, em comparação com o de Passos Coelho, bastante menos liberalizante e muito mais adepto da manutenção do status quo estatista vigente desde a implementação da democracia. Rangel, ao contrário de Passos, apenas militava no partido há escassos dois anos, e , por esse facto, a carência de um percurso dentro das hostes do aparelho partidário constituiria, à partida, um relevante entrave à sua eleição.

O terceiro candidato, José Pedro Aguiar-Branco, optou por, ao invés de formular propostas concretas para conduzir os destinos da pátria, em empolar o seu estatuto de genuíno social-democrata, carregando, com orgulho, a herança deixada por Sá Carneiro e apelando à colocação do PSD no centro-esquerda do espectro político.

A luta pela liderança foi, de certa maneira, bastante dura e envolto em algumas polémicas, mas o debate programático foi uma constante. Numa tertúlia com jornalistas e bloggers que teve lugar num conhecido café de Lisboa, Paulo Rangel, respondendo a uma questão que se prendia com o seu posicionamento ideológico afirmou “… que se sentia à direita do PSD…”. É um opção perfeitamente legitima, dado que os partidos não têm, nem devem, apresentar um pensamento único e só têm a ganhar em actuar como uma estrutura abrangente. Contudo, estranha-se que Capucho tenha optado por apoiar o candidato mais à direita, quando um social-democrata e sá-carneirista estava na corrida. Neste caso, nem a história nem a ideologia foram condição para a escolha de António Capucho.

Pedro Passos Coelho venceu  e, quando, em 2011, elaborou as listas para o Parlamento, não convidou António Capucho para nenhum lugar de destaque, quando era sabido que este ambicionava a presidência do órgão legislativo. A partir desse momento, começou a luta de Capucho contra a direcção do PSD.

Pesando estes dois acontecimentos, fica a ideia que o ressentimento pesou mais do que a ideologia.

 

Pedro Castello Branco

 

Comentários

comentários