No Egipto, as coisas estão a mudar. Hala Shukrallah, 59 anos, activista e socióloga. Desde domingo que é a primeira mulher a presidir e a assumir-se como líder de um partido político no país das pirâmides.

Desde Domingo passado, dia 23, que o Primeiro-Ministro, Hazem El-Beblawi, enviou para o Presidente interino, Adly Mansour, a sua demissão e, consequentemente, a do seu governo. No Cairo, quase todos esperam que o Presidente a aceite. O executivo do economista Beblawi, estava sob observação pesada desde o início do seu recente mandato. A pressão acabou por levar a melhor.

Segundo alguns, os motivos que levaram o Primeiro-Ministro a apresentar esta renúncia podem estar ligados, por um lado, ao facto de que, só muito tardiamente se ter etiquetado a Irmandade Muçulmana como uma “organização terrorista”, e, por outro, de o seu Governo ter atraído a ira dos desempregados, deixando-os de “boca seca” depois das inúmeras promessas de subsídios indispensáveis à sua sobrevivência.À renúncia de Beblawi junta-se uma outra notícia: o Supremo Tribunal, uma vez mais, permitiu a entrada dos polícias nos campus universitários, coisa que havia já sido proibida em 2010, em plena revolução anti-Mubarak. A polícia regressou, uma vez mais, às Universidades para controlar os estudantes, especialmente naquelas em que a maioria dos alunos é aliada da Irmandade Muçulmana.

Em suma, o Egipto continua a navegar em águas muito agitadas quer no âmbito politico quer no social. Mas no meio de tudo isto, eis que surge um rasgo de sol na escuridão. Uma outra notícia, vinda do Cairo, faz sorrir as mulheres e os laicos: é que, pela primeira vez na história do Egito, uma mulher foi eleita líder de um partido. O Partido da Constituição, fundado por Mohammed ElBaradei, no início de 2012.
O sucessor de ElBaradei, como líder do partido, que se distingue pelos seus valores laicos e democráticos, chama-se Hala Shukrallah, tem 59 anos e é da religião copta (trata-se de uma igreja cristã que não está em comunhão nem com a Igreja Ortodoxa nem com a Católica). Activista e socióloga de esquerda, Hala é a diretora de uma empresa para o desenvolvimento das organizações da sociedade civil.

Foi eleita com 108 votos a favor, num total de 189, enterrando, assim, os seus dois adversários, Gamila Ismail e Hossam Abdel-Ghafar, ambos membros fundadores do partido. Mohammed ElBaradei renunciou em julho do ano passado, depois do partido, que ele próprio fundou, se ter dividido, muito por responsabilidade sua, aquando das duras críticas que fez aos militares acusados de pouco terem feito aquando dos “protestos de sangue” a favor do ex-presidente Mohammed Morsi .
A eleição de Hala Shukrallah é vista como uma lufada de ar fresco no impasse que paira e agrava a situação política no Egipto, onde todos estão à espera dos candidatos à cadeira de Presidente, antes de mais, e à vitória quase certa do general Abdel-Fattah El-Sisi, actual Chefe de Estado Maior das Forças Armadas.

Nem mesmo Hala estava à espera de ser a escolhida. Para ela, agora, a vida mudou e sobre a sua cabeça recai agora a tarefa de reunir um partido dividido e de levar avante as suas instâncias e os seus valores que, cada vez mais, se evidenciam como uma força política liberal e democrática, contrária a qualquer tipo de violência, seja a praticada pelos militares ou pela Irmandade Muçulmana.

Ana Sousa

 

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