No passado fim-de-semana teve lugar, no histórico Coliseu dos Recreios, o XXXV congresso do PSD. Antes de mais, importa realçar que, quando em 2007, o PSD alterou os estatutos e passou a eleger os líderes por via da votação directa dos militantes, passando o congresso a servir apenas como espaço para a tomada de posse dos órgãos eleitos, o conclave dos sociais-democratas perdeu todo o fulgor, atractividade e imprevisibilidade que o caracterizava. Saudosos os tempos em que os candidatos empenhavam toda a energia nos discursos perante os congressistas e colocavam as hostes ao rubro. Agora, embora o papel dos militantes de base tenha ganho maior importância, perdeu-se o debate e a confrontação de programas eleitorais.

Apesar da generalidade dos jornalistas e comentadores políticos terem antevisto um congresso morno, previsível e sem grandes notas de destaque, não se pode dizer que assim tenha sido. A presença de quatro ex-presidentes do PSD e o convite feito por Passos Coelho a Miguel Relvas para que este encabeçasse a lista ao Conselho Nacional do partido, foram acontecimentos que ninguém poderia prever. Se o primeiro facto, no que toca à unidade do partido, é de salutar, já o segundo só pode ser classificado como um enorme erro político cometido por Passos Coelho. Ao contrário do que a generalidade dos dirigentes partidários possam pensar, a memória das pessoas não é assim tão curta. Ainda nem um ano passou desde a saída de Relvas do governo e permanece viva a imagem de personalidade pouco recomendável que o ex-ministro deixou, bem como todo o desgaste que provocou no executivo.

Quanto aos discursos protagonizados pelas figuras mais mediáticas, destaca-se, pela positiva, o de Nuno Morais Sarmento. O ex-ministro dos governos Durão Barroso e Santana Lopes confirma que lhe assenta na perfeição o rótulo de um dos melhores políticos da sua geração. De forma estruturada, e com uma pouco usual densidade política, expôs as suas ideias ao congresso. Não necessitou de recorrer à baixa política para ser assertivo com os críticos internos que, não tendo marcado presença na reunião magna, todas as semanas destilam fel no governo apoiado pelo partido que integram.  Já Luís Filipe Menezes, que apenas compareceu ao congresso para, uma vez mais, utilizar a habitual retórica inflamada e rancorosa, personificou o momento mais triste do fim-de-semana. O facto de somente ter estado no congresso para falar, constitui desde logo um ponto pouco abonatório. O teor do discurso foi a todos os níveis lamentável. Numa primeira fase, parecia querer assumir a total responsabilidade pela derrota sofrida no Porto. Porém, após a introdução aparentemente humilde, de pronto desatou a culpar o desaire autárquico com a falta de apoio por parte da equipa liderada por Rui Rio e, sem que tivesse pronunciado o nome, deixou claramente a entender que os artigos de opinião escritos por Paulo Rangel que denunciavam a enorme fraude cometida pelos autarcas que, uma vez atingido o limite de mandatos, se candidatam a outra Câmara Municipal, motivaram nos eleitores um sentimento de desdém pela figura de Menezes.

No que diz respeito à surpreendente aparição de Marcelo Rebello de Sousa, como escreveu Francisco Assis no jornal Público, não foi mais do que um remoque a Passos Coelho.

Pedro Castello Branco

 

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