Esperaram que a noite chegasse e que todos estivessem a dormir, para que houvesse menos possibilidade de fuga e conseguissem um número de mortes mais elevado. Foi assim que 58 crianças morreram na passada madrugada do dia 25 de fevereiro às mãos do movimento islâmico Boko Haram, justificando, assim, a dura repressão que lhes é feita por parte do governo nigeriano.

Os cobardes que mataram as 58 crianças no colégio de Buni Yadi, no nordeste da Nigéria, realizaram um verdadeiro espetáculo de horror que qualquer pessoa de sentimentos se envergonha só de ouvir. Antes de deitarem fogos aos dormitórios das crianças, dispararam sobre cerca de 30. Só mataram adolescentes masculinos, com idades compreendidas entre os 15 e os 20 anos. Grande parte dos corpos, segundo oficiais nigerianos, ficaram completamente reduzidos a cinzas.
O colégio, uma escola secundária estatal, tornou-se um alvo a abater porque era uma fonte de cultura ocidental, ou seja, não era suficientemente islâmico para o gosto “requintado” dos assassinos extremistas que mataram apenas por vingança, perpetrando uma verdadeira carnificina, poupando apenas as meninas que, por estranho que possa parecer, saíram deste banho de sangue, intocadas. Aconselharam-nas, apenas, a regressar às suas casas, a casaram, a terem filhos e a deixarem de parte a educação ocidental.
Para estas crianças, aprender parecia ser a única coisa boa ao mesmo tempo que tentavam passar despercebidas no meio de tanto horror, uma vez que uma das praticas dos Boko Haram é raptar adolescentes para usá-los, tal como outros grupos terroristas em África, como combatentes, auxiliares de logística e distração sexual.
A história dos Boko Haram, cujo nome significa “a educação ocidental é pecaminosa”, o que explica, de maneira tortuosa, a fúria contra as escolas, as vacinas e todos os aspectos ligados à cultura ocidental, é feita, nos últimos anos, de dezenas de ataques do género do agora executado, e de milhares de vítimas, a maioria civis.
Mas não é menor a repressão, igualmente cruel, do governo que responde executando os rebeldes sem qualquer tipo de julgamento ou hesitação, conseguindo, frequentemente, ser muito mais letal, em número, do que o próprio Boko Haram, alimentando, assim, uma raiva reciproca.
Há duas semanas atrás, numa só acção, o grupo reivindicou a destruição de uma aldeia e a morte dos seus 200 habitantes, um sinal claro, e evidente, de que a grande ofensiva decidida, e muito publicitada pelo Presidente Nigeriano, Jonathan Goodluck, no ano passado, não produziu os resultados desejados, desencadeando, ao invés, um ciclo de represálias sangrentas contra os civis.
Refira-se que, em África, metade da população tem menos de 19 anos de idade e com a eclosão de qualquer guerra, a “matrícula” de meninos e meninas, como combatentes ou apoio aos beligerantes, é como que obrigatória. São, pelo menos, 14 os países africanos em que o fenómeno ainda não foi erradicado, apesar de este ser considerado um crime contra a humanidade. Já é tempo da comunidade internacional intervir de forma a acabar com este flagelo.
O alarme, agora, veio da Nigéria, onde a seita dos Boko Haram sequestra e mata adolescentes como um acto normal e humano, apenas porque estudavam a cultura dos infiéis, dita cultura ocidental. Nenhum estado de guerra ou vingança justifica a morte de crianças, pois estas são sempre inocentes.

Ana Sousa

 

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