Quanto mais tomo conhecimento sobre os entendimentos entre a FIFA e os políticos brasileiros para a realização da Copa do Mundo de Futebol, no Brasil, mais fico estarrecido. Surpreso, perplexo e até horrorizado. Percebe-­se, nitidamente, o amadorismo dos políticos para tratar de assuntos específicos e sérios, por não entender nada do assunto. Já me perguntaram porque isso acontece. Respondo que é porque não precisa ter curso algum para ser político. O cidadão tem que ser popular e concorrer às eleições para um dos milhares de cargos políticos: vereador, prefeito, deputado estudual, governador, deputado federal, senador ou presidente da República. Basta ser eleito que toma posse ao cargo. Antigamente, «valia» uma lei que um candidato só poderia concorrer as eleições se tivesse uma «Ficha Limpa». Não ter nenhuma ação num tribunal de Justiça contra ele. Hoje em dia, os tribunais eleitorais já nem se preocupam mais com isso, tamanha é a quantidade de políticos eleitos e investigados por corrupção. Só para que todos tenham uma ideia do que se passa no Brasil, o ministro José Antonio Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, o mesmo que votava pela absolvição dos envolvidos no caso de corrupção no processo do «Mensalão», ordenou na semana passada a soltura do deputado estadual do Mato Grosso, José Geraldo Riva (PSD), preso na Operação Ararath, que apura suspeitas de crimes contra o sistema financeiro. O deputado responde a mais de uma centena de ações judiciais cíveis e criminais e estava detido no presídio da Papuda, em Brasília. Para convencer Toffoli a determinar a libertação de Riva, os advogados Válber Melo e Rodrigo Mudrov argumentaram que pela Constituição um parlamentar somente pode ser preso após autorização da respectiva Casa Legislativa. A única exceção é em caso de flagrante por crime inafiançável. No entanto, segundo a defesa, não existia nenhum elemento concreto para a prisão. Juiz corrupto é corrupto sempre. Toffoli aceitou o argumento dos advogados. Deve ter sido depois de ter feito um «acordo» para soltar este bandido de Cuiabá.

Em 2007, a FIFA comunicou a CBF que queria entre oito e dez estádios para a Copa. Só não sabia que os políticos brasileiros queriam agradar aos seus eleitores em todo o país. Em Genebra, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, revelou, na semana passada, que o Brasil chegou a propor a construção de 17 estádios para sediar o Mundial de 2014, duas vezes mais que a exigência da entidade. Em entrevista ao jornal suíço «Le Temps», Blatter alertou que foi o governo brasileiro quem decidiu levar a Copa para lugares como Manaus e não a Fifa. Apesar de se dizer «um pouco nervoso», ele garante que «tudo estará pronto» para o início da competição. O governo e a CBF acabaram convencendo a FIFA à realizar o Mundial em doze estádios, o que tornou a Copa no Brasil a mais cara da história. E ao distribuir os jogos em doze cidades/sedes, o Brasil ainda criou problemas logísticos para seleções e torcedores. Jerome Valcke, secretário­-geral da FIFA, chegou a alertar que os adeptos seriam os que mais sofreriam com esta Copa.

Para fechar esta minha crítica aos negociadores que levaram o evento para o Brasil, um dos membros do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo, o ex-­atacante da seleção brasileira, Ronaldo Fenômeno, o mesmo que falou que não «se faz uma Copa do Mundo com hospitais», disse também, na semana passada, se sentir envergonhado com os atrasos e dificuldades do país nos preparativos para o torneio, mas defendeu que o Mundial não seja alvo de protestos e culpou os governos pelos problemas. O ex­jogador acredita serem justas as críticas feitas pela FIFA ao Brasil, por não ter cumprido os prazos, já que o país concordou com todas as exigências da entidade quando aceitou ser sede da competição, em 2007: «E de repente chega aqui é essa burocracia toda, uma confusão, um disse me disse, são os atrasos. É uma pena. Eu me sinto envergonhado, porque é o meu país, o país que eu amo, e a gente não podia estar passando essa imagem para fora», afirmou Ronaldo em entrevista à Reuters na sede de sua agência de comunicação, em São Paulo.

José Roberto Tedesco

 

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