“Quem com maus vizinhos vizinha, com um olho dorme e com o outro vigia!”

A nossa capacidade de defender os direitos humanos pode ser medida na forma como tratamos os iguais, na forma como nos relacionamos com os diferentes ou como coabitamos com os vizinhos. Num mundo cada vez mais global, o vizinho não é mais aquela nação do lado a quem se recorre para pedir emprestado uma chávena de açúcar, mas sim a nação de outro qualquer canto da terra, com uma cultura e experiência totalmente diferente da nossa e com quem travamos contacto frequente na defesa de interesses e estratégias comuns. Ignorar isso é ignorar o efeito que o bater de asas de uma borboleta num canto do mundo pode ter na tempestade provocada nos países do outro canto. Ao longo de décadas, a Austrália ignorou a situação de um dos vizinhos mais próximos na sua luta pela liberdade e independência: Timor Leste.

Preocupada com os ganhos políticos e económicos e segura do seu potencial regional a Austrália na década de 70 desprezou intencionalmente a luta de Timor Leste contra a ocupação indonésia. Na obra “O petróleo de Timor”, Tom Clarke argumenta que o petróleo foi sempre o terceiro jogador no jogo geopolitico da Austrália com Timor, onde os interesses financeiros rapidamente apagavam a preocupação com a sangrenta invasão que o poder indonésio conduzia nessa década no território vizinho e onde a definição de fronteiras marítimas permanentes era mais importante que a luta de Timor-Leste pela sua independência.

Nem sempre foi assim e a prova de que há mais vida para além da desregrada e interesseira política económica da Austrália com Timor está bem espelhada na obra de Alex Meillier “Alias Rubi Blade” que mais que uma história de amor entre duas pessoas – Kirsty Sword e Xanana Gusmão -, é também sinal de que a luta de uma mulher australiana pelos direitos humanos pode alterar a história de um país e do seu povo e constituiu-se como um marco na luta de Timor Leste pela independência em face da ocupação indonésia. Uma década depois, do apoio da INTERFET, da solidariedade das ONG australianas, dos programas de cooperação bilateral já pouco parece restar na relação entre Austrália e Timor Leste. O cheiro do petróleo, a cotação do dólar e o peso da economia regional parecem hoje ditar as regras dessa necessária vizinhança entre Austrália e Timor Leste, numa relação de coabitação pouco diplomática onde se discutem fronteiras palmo a palmo procurando que a vantagem económica fique apenas do lado do mais forte apesar do recurso natural que lhe dará essa mesma vantagem se situar do lado do mais fraco!
Será apenas isso que leva a Austrália a espionar Timor Leste para obter uma vantagem financeira numa negociação essencialmente comercial com um dos países emergentes mas ainda assim dos mais pobres do mundo? O que leva o valentão da Ásia-Pacífico a aproveitar do “buraco negro da lei” para de forma tão descarada espionar políticas e políticos timorenses para fins comerciais?
Ao mesmo tempo, no outro lado do triângulo estratégico da região discute-se a liderança nas eleições presidenciais de Julho próximo sem que ao mesmo tempo se tenham notícias de que a Austrália exerce igual preocupação para saber qual dos candidatos indonésios terá o curriculum mais limpo em termos de defesa dos direitos humanos ou qual será o mais indicado para manter a relação de boa vizinhança. Ao invés de gastar recursos e criar atritos desnecessários na diplomacia regional no litígio Timor Leste v Austrália dirimido no Tribunal Internacional de Justiça porque não aceita a Austrália simplesmente negociar de boa fé e de acordo com o direito internacional?
Em Timor Leste a vida segue o seu tranquilo rumo, governantes e timorenses preparam-se para receber a Cimeira da CPLP, conjectura-se sobre se Xanana abandonará o cargo numa altura tão decisiva para o futuro do país e desenha-se o modelo de uma Zona Especial de Economia Social de Mercado de Timor-Leste no Oecussi.

Talvez seja hora de o Governo Australiano tratar os vizinhos da forma como gostaria de ser tratado. Talvez seja a hora de o Governo Timorense arregaçar as mangas e tratar do seu país como gostaria que os vizinhos se vissem obrigados a tratá-lo!

Fernando Figueiredo

 

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