Durante muito tempo, o Brasil foi visto por estrangeiros, principalmente europeus, como um time despreocupado com o seu guarda-metas, versão aportuguesada de goal keeper, depois substituído por goleiro.
Entendiam que a nossa seleção, composta majoritariamente por jogadores técnicos – muitos deles craques –, se garantia, precisamente, em seu futebol criativo e ofensivo.
Ser vazado vez ou outra não chegava a ser um problema, já que a equipe da camisa amarela – eventualmente azul – era considerada uma fabulosa máquina de encantar e fabricar gols, especialmente na época de sua majestade, o rei Pelé.
Na era de ouro do Brasil, de 1950 a 1970, período em que a nossa seleção ganhou três Mundiais e ficou uma vez em segundo, marcou 83 gols em 30 jogos, uma média de quase três por partida (2,76).
Levou também 33, pouco até para quem jogava “sem goleiros”.
Nem falo de Barbosa, considerado por diversos jogadores um dos grandes que já tivemos, mas que morreu injustiçado, pelo fatídico gol de Ghiggia, que calou o Maracanã e todo o Brasil.
Por conta de sua falha, pegou a “perpétua”, como o próprio definiu o sofrimento que o acompanhou por toda a vida, por conta de críticas cruéis, como se não lhe fosse permitido errar, humano que é.
Júlio César, o atual, vacilou na África do Sul. Mesmo assim teve o benefício da segunda chance.
Faltou um Scolari na vida de Barbosa, como li em oportuno editorial dia desses.
Félix, em 1970, também não era bem visto, inclusive por brasileiros. Para muitos, o ex-goleiro do Fluminense não estaria à altura da seleção. No México, mostrou que estava.
Mas, curiosamente, a pressão se intensificou justamente sobre os arqueiros de dois dos mais promissores esquadrões que o Brasil já formou – os de Telê Santana.
Convocado para três Mundiais (os dois primeiros na reserva), Waldir Peres ficou marcado negativamente na Espanha, em 1982 e nunca mais foi chamado. Da estreia com falha contra a União Soviética à Tragédia do Sarriá, foi seguidamente cornetado. Como toda a seleção, sucumbiu ao terremoto Paolo Rossi.
Carlos, goleiro também de três Copas, não era o que se podia chamar de confiável. Como Zico, teve a carreira para sempre associada a um pênalti, na eliminação para a França de 1986: o meia, pelo perdido; e o goleiro, pelo que deixou a todos aturdido – uma bola que lhe escorou nas costas, após bater na trave.
Até Taffarel, titular em 1990, 1994 em 1998, sofria contestações. Diziam que era goleiro de clubes, não de seleção. Três Copas e 21 partidas depois, mostrou que era justamente o contrário. Ao menos para com este houve reparação: passou a ser chamado de o homem das mãos santas.
Marcos, em 2002, Dida, em 2006, e Júlio César, em 2010, deram uma trégua às desconfianças. Nos Mundiais em questão, eram praticamente unanimidade.
Mas 2014 veio para acabar com o período de cessar-fogo. De melhor do mundo, Júlio César passou, num quadriênio, a ter seu valor colocado em xeque.
Menos por Felipão.
Para o técnico do Brasil, a queda de prestígio de Júlio ante a opinião pública em nada afetou suas convicções. JC é o seu goleiro e ponto final.
Compartilho da posição de Scolari. Júlio tem muita experiência na seleção, foi excelente na Copa das Confederações.
Faço, porém, uma ressalva: não estou integralmente convicto de que o goleiro não venha sentindo a intensa pressão sobre seus ombros. Por vezes, tenho a sensação de que o camisa 12 faz defesas relativamente fáceis parecerem difíceis.
E me pergunto: seria algo emocional, fruto de uma possível insegurança?
A seu favor, contudo, o telhado de vidro chamado Felipão.
Porque, ganhe ou perca, no fim, tudo será debitado na conta do treinador.
Apesar de Neymar.

João Marcelo Garcez
Blog do Torcedor
JG PINN

 

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