Timor-Leste é um Estado do tamanho da Bélgica, superdotado de recursos naturais e energéticos, situado entre gigantes, Austrália e Indonésia, o que por si só representa uma situação complexa. As prioridades externas de Timor-Leste num plano regional e bilateral são essencialmente com os países da ASEAN, Austrália, Nova Zelândia e países da CPLP e, num plano mais amplo, com os EUA e União Europeia. A Indonésia surgiu e continuará cada vez mais presente, de forma gradual, como uma prioridade da política externa, tendo em vista a reconciliação dos dois Estados.
Gradualmente as relações entre Timor-Leste e a Indonésia têm sido caracterizadas por uma aproximação paulatina e até já há quem defenda a união de Timor mas isso, é por enquanto mera utopia política de quadrantes desalinhados com maior expressão no lado indonésio.
Além deste grupo de países, Timor-Leste não poderá ignorar os países do Extremo Oriente, designadamente a China e o Japão, o que até sustenta o factor político e diplomático que justificou a sua adesão à CPLP dada a necessidade estratégica de aproximação a vários tabuleiros políticos por forma a aumentar a sua margem de acção nas relações internacionais, evitando concomitantemente tendências hegemónicas, e a pertença ao mundo dos países de língua portuguesa.
Curiosamente, além do Japão também a Índia manifestou vontade de integrar o recente Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) porventura como forma de conseguir o estatuto de observador associado da CPLP e por essa via estreitar laços com o mundo lusófono. Os Jogos da Lusofonia deste ano, em Goa, organizados pela Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa (ACOLOP), organização desportiva não-governamental com 12 membros, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau (China), Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Guiné Equatorial, activa desde 2004, juntou dois anos depois a Índia e o Sri Lanka como membros associados são prova evidente desse incremento das relações entre a Índia e os países que falam português, o que torna mais viável essa eventual integração na CPLP. Acresce que actualmente há cursos de Português na Índia, muitos funcionários do Estado têm aprendido o idioma em Portugal e a Índia tem pedido a Portugal a tradução de livros para o idioma de Camões. Já em relação ao Japão, salvo melhor leitura, o interesse em adquirir o estatuto de observador na CPLP estará associado à ambição de aprofundar as parcerias com países de expressão portuguesa que estão a ampliar a sua presença em África e na América Latina.
A todo este contexto junta-se a questão da aceitação da Guiné-Bissau como membro de pleno direito da CPLP e o facto de Timor-Leste que assume pela primeira vez a presidência da CPLP, durante a cimeira subordinada ao tema “A CPLP e a Globalização” a realizar em Díli no final de Julho, ter elegido como subtema mais importante a cooperação económica. O próprio Presidente timorense Taur Matan Ruak em missiva difundida à imprensa diz “ser este o momento oportuno para se promover um debate político sobre as novas formas de cooperação económica, sobre o papel das empresas e do sector privado nos processos de desenvolvimento e sobre o potencial económico da língua”, e acredita que a conferência servirá para aprofundar os laços de cooperação e de concertação de posições sobre assuntos de interesse e definir novas linhas estratégicas para responder os desafios que se colocam ao nível dos países membros da comunidade.
Na missiva, o Presidente timorense reconhece a “crescente importância” do sector energético nos processos de desenvolvimento económico e social e a “enorme pressão” sobre os recursos naturais. “Tendo em conta a abundância desses recursos no espaço da CPLP, o presidente de Timor-Leste propõe que se aproveite a ocasião para se promover um debate sectorial sobre a cooperação política no sector energético, a inovação tecnológica e o papel que as empresas do sector energético terão no desenvolvimento dos países que integram a Comunidade.”
É pois, perante este grande desafio e em acordo com toda a sua visão de politica externa regional e mundial, que Timor-Leste se embeleza ainda mais para receber quase um milhar de participantes dos diversos países e convidados, realizando um pouco por todo o lado obras de última hora, da recuperação dos jardins ao novo asfalto das ruas da cidade, se organiza em inúmeras reuniões de planeamento para que tudo esteja em acordo com as agendas, se mobiliza para disponibilizar de alojamento e gastronomia o que de melhor tem para ofertar em hospitalidade e neste cenário, o mais simples, por certo que será a inauguração prometida e prevista do Instituto da Língua Portuguesa de Timor-Leste durante cimeira da CPLP.
Diz-se na teoria politica que não há países amigos, mas apenas interesses comuns e que não é soberano quem quer, é livre quem pode, Timor-Leste por sofrida e penosa experiência própria sabe que esta aposta diferenciadora tendo a língua portuguesa por elo agregador é importante para o seu futuro. O ficar preso no passado não melhora a qualidade de vida do povo timorense e só com a chave da língua única se pode abrir a porta de um futuro melhor em conjunto com os povos irmãos da CPLP. Isso só se afirmará se todos os seus membros souberem estar presentes nesse momento de definição de caminho comum.
Timor tem feito tudo o que está ao seu alcance para dizer “presente”!
Das conclusões da cimeira, sejam elas quais forem, estou convicto que não deixará de constar a referência ao enorme esforço de Timor-Leste e empenho que Governo e timorenses têm colocado nesta organização da cimeira.
O futuro disso será também testemunha!

Hamutuk ita bele!
(tradução: Estamos juntos)

Fernando Figueiredo

 

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