Não queria comentar os acontecimentos negativos, nem dentro ou fora de campo, no jogo de abertura da Copa do Mundo, em São Paulo, quando a presidente Dilma Rousseff foi vaiada e xingada num coro orquestrado com palavrões. Foi uma manifestação de grande mau gosto e mostrou um povo sem cultura ou educação. As pessoas não precisavam aplaudir (eu, particularmente, não tenho a menor admiração por esta senhora) e poderiam até fazer uma sonora vaia, como fizeram, antes de iniciar o coro: «Dilma vai tomar no ..». Este refrão, que foi repetido vezes sem fim, parecia que não iria acabar nunca e também atingiu a FIFA. Mas o pior foi o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) classificando o episódio como sendo um movimento da classe média branca e privilegiada, dizia isso por causa dos preços dos ingressos, muito caro para o jogo inaugural, e que variavam de 990 a 440 reais (cerca de 323 a 144 euros). Cerca de 60% das pessoas empregadas recebem por mês o salário mínimo do país que é de 724 reais (cerca de 236 euros).

E o pior ainda ficou por conta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que chamou os que vaiaram a atual presidente de «moleques» e os que xingaram «de gente sem educação». Ele tem legitimidade para qualificar quem xinga. Pois entende bem do assunto. Sempre destratou e agrediu verbalmente seus adversários. O ex-presidente Itamar Franco foi uma de suas vítimas. Agora ameaçou os manifestantes e antes de fazer a advertência velada, como se soubesse antecipadamente que Dilma vai ganhar, ainda exprime a vontade que tem de fazer mal aquelas pessoas que são contra suas teorias. Pensa que todos os brasileiros são ignorantes ou que vivem de esmolas. Lula não procurou ainda fazer uma auto-avaliação de seus erros e nem veio a publico pedir desculpas ao povo sofredor, do qual insiste em dizer que são os «das Zelites». Não está vendo, ou não quer perceber, que Dilma está sendo vaiada e xingada em todos os cantos do Brasil e perdeu mais uma oportunidade de ficar calado.

Mas o desespero dos petistas tem explicação. É devido aos maus resultados divulgados nas pesquisas de opinião pública, que apontam, cada vez mais, para o descontentamento popular com o governo e a candidata do PT. A pesquisa CNI/Ibope (Confederação Nacional das Indústrias/Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) divulgada na semana passada, mostra que a popularidade do governo da presidente Dilma Rousseff caiu de 36%, em Março, para 31% em Junho (aqueles que consideram o governo ótimo ou bom). A confiança na presidente Dilma também foi reduzida de 48% para 41%. Ela vem de quedas substanciais em sua aprovação. No levantamento de Novembro de 2013, a petista tinha uma avaliação positiva do seu governo de 43%. Essa foi a segunda queda desde Julho, quando as pesquisas refletiram os movimentos de rua. O levantamento mostra ainda uma piora em todos os setores de avaliação do governo da presidente. Aumentou de 27% para 33% o percentual daqueles que consideram o governo ruim ou péssimo. Esses números dão para desesperar aqueles que pensavam que venceriam ainda no primeiro turno das eleições presidenciais.

Também foi uma semana em que o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, cometeu uma gafe ao comentar que o público brasileiro que xingou Dilma no jogo de abertura da competição era alegre e animado. Parecendo, aparentemente, alheio ao mal estar que a torcida do Brasil impingiu à Dilma Rousseff, no Itaquerão. O presidente de Angola elogiou a animação e alegria do povo no evento. Na ocasião, Dilma tinha sido xingada em três momentos diferentes. Santos teve encontro bilateral com a presidente Dilma, no Palácio do Planalto, quando o Brasil anunciou apoio da candidatura de Angola ao Conselho de Segurança da ONU. Eduardo dos Santos esteve no Brasil a convite da presidente para assistir ao jogo de abertura do Mundial.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, também criticou o xingamento feito à presidente Dilma Rousseff na Arena Corinthians. Antes de reunião do Conselho Nacional de Justiça, esta semana, Barbosa chamou o episódio de «baixaria, um horror». No dia seguinte às vaias e xingamentos, Dilma disse que não se abaterá com o que aconteceu durante a abertura do Mundial. Diz que as agressões não são partilhadas pela maioria do povo brasileiro, que é educado, e que as palavras proferidas por parte dos torcedores não deveriam sequer ser ouvidas pelas crianças. Primeira verdade que a escuto ela dizer.

José Roberto Tedesco

 

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