Tem coisas que só acontecem com o Brasil. Parece até o Botafogo carioca. No momento que explode mais um escândalo sobre os «negócios» da Petrobras, o Partido dos Trabalhadores (PT) confirma Dilma Rousseff como candidata do partido à reeleição para presidente do país e inicia sua mais dura campanha desde 2002. O pleito eleitoral não vai ser nada fácil e o poder de pressão da máquina partidária não deve ser tão grande desta vez. O PT, rechaçado pelas manifestações populares e atingido pela solidariedade aos criminosos do mensalão, pelos desfalques em empresas estatais e pelo superfaturamento na construção dos estádios para a Copa do Mundo, perdeu parte de sua força popular. Ainda assim, é o partido com maior identidade entre os eleitores e, de longe, o que tem maior número de militantes.

Segundo as pesquisas, a queda na popularidade da presidente veio acompanhada de um aumento no número de pessoas que pretendem votar branco ou nulo. Ou seja: nem todos os eleitores que deixaram Dilma passaram para o lado de seus adversários. E é isso que tem entusiasmado os petistas. Para Dilma, a companhia e o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva representa simultaneamente uma vantagem e um risco. Lula ainda é o maior cabo eleitoral do país, mas Dilma terá de lidar com a pressão constante de partidários para que ele seja o candidato. A legislação eleitoral brasileira permite que o candidato seja trocado até 15 de Setembro. Mas, pelo menos no sábado passado, a convenção petista foi convocada para anunciar que a candidata será Dilma.

Os protestos de junho do ano passado derrubaram mais da metade da aprovação da presidente, que até então desfrutava de altos índices de popularidade. Apesar de liderar todas as pesquisas de intenção de voto, Dilma tem caído em todas elas. E não há no horizonte nenhuma grande realização do governo que possa alterar o panorama eleitoral – poucos acreditam que uma vitória da seleção brasileira brasileira na Copa do Mundo, por exemplo, devolva eleitores à presidente. As promessas para o eventual segundo mandato reforçam a sensação de que Dilma não tem nada novo a oferecer. As diretrizes do programa de campanha, aprovadas no mês passado pelo PT, se limitam a promessas genéricas a respeito de problemas que ela não conseguiu resolver em seu primeiro mandato.

Ao discursar na convenção partidária que indicou seu nome como candidata, Dilma revelou o esforço notável, diga-se de passagem, de uma governante com a popularidade em queda para ajustar o vocabulário ao desejo de mudança manifestado por 74% do eleitorado, segundo pesquisa da Datafolha. Comparado ao discurso que a presidente fez na sua tomada de posse, em 1º de Janeiro de 2011, o texto pode se tornar em matéria prima pela oposição: uma espécie de autodenúncia de tudo que não foi feito. Há três meses das eleições, a candidata repetiu, na forma de promessa, os compromissos que assumira na posse e que não conseguiu executar. Fez isso sem pronunciar nenhuma frase que pudesse ser entendida como uma autocrítica. Como todo político esperto, em algumas passagens da sua fala, Dilma culpou terceiros pelos insucessos de seu governo.

O novo escândalo desta semana é com a Petrobras. Mas, começou há 11 anos atrás, na tarde de uma segunda-feira, 28 de abril, no Recife, quando os então presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez anunciaram que a Petrobras e a Petroleos de Venezuela S.A. (PDVSA) construiriam uma refinaria em Pernambuco, ao custo de US$ 2,3 bilhões. Lula escolhera o estado onde nasceu para lançar um empreendimento industrial simbólico do seu programa de crescimento econômico. Elegera-se presidente cinco meses antes, com 57% dos votos locais. Seria reeleito três anos depois, com 78,4% dos votos pernambucanos.

As despesas com a construção da refinaria dispararam. Previa-se gastar US$ 2,3 bilhões. Logo o valor multiplicou-se, o que teria levado a Venezuela a se retirar pouco depois, sem formalizar a saída. A conta chegou a US$ 18,5 bilhões em Abril de 2014. E pode avançar para US$ 20,1 bilhões até novembro, segundo projeções da empresa. Esse valor equivale ao dobro do lucro líquido obtido pela empresa estatal brasileira no ano passado. Em outro tipo de comparação, é quantia seis vezes maior que todo o dinheiro gasto pelo país na construção e na reforma de 12 estádios para a Copa do Mundo de 2014. Viva os administradores e políticos do PT.

José Roberto Tedesco

 

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