Ele há coincidências cósmicas, já por aqui o defendemos, mas a verdade é que há factos que o comprovam. Foi o que aconteceu no arranque desta semana, quando uma multinacional de produtos alimentares se propôs apresentar um plano pioneiro que visa combater o desemprego. Nada a opor, p’lo contrário, a iniciativa é louvável e, oxalá, não acabe perdida no meio de tanta burocracia.

O facto, porém, é que a dita marca conseguiu ter o seu programa ‘patrocinado’ pelo primeiro-ministro, que se fez acompanhar de uma comitiva que incluía o vice-primeiro-ministro e o titular da pasta da Solidariedade. Ah…cereja no topo do bolo, o presidente da Comissão Europeia, o nosso ‘compadre’ Barroso também lá esteve, a abençoar a aliança.

Como se vê, a coisa foi séria, mas dispensava-se a presença de tão digna corte, não havia necessidade, bastaria enviar um secretário de Estado e estava o assunto resolvido. O que denota apenas a servidão da política ao capital.

O mais incrível é que o primeiro-ministro foi mais além do que o protocolo indicaria e vai daí lança o convite a que outras empresas façam o mesmo que a citada multinacional, isto é, que ofereçam estágios para jovens. De acordo com a imprensa, o ‘abençoado’ programa da multinacional propõe-se criar 8.000 estágios, mas empregos… apenas 500, ou seja, 16 vezes menos. Mas para o nosso líder, disto é que Portugal precisa; combater o desemprego com estágios.

Acontece que no preciso dia desta encenação mediática, com a elite política transformada em marionetas de uma marca, como num qualquer ‘comercial’, eis senão quando o destino intervém e desfaz a quimera.

De facto, segundo o Relatório Europeu de 2014 sobre ofertas de emprego e recrutamento, os jovens com menos qualificações foram os mais afectados pela crise. Uma das conclusões do dito relatório, refere que os trabalhadores portugueses com qualificação média (até ao 12º ano) estão a ocupar os postos de trabalho menos qualificados, ou seja, os mais mal pagos. Como se não bastasse, o recrutamento de quadros superiores está a baixar em relação à média da população empregada.

Saberia o nosso primeiro e respectiva corte da existência deste relatório? Que seria divulgado logo naquele dia? E ainda assim ‘aceitaram’ fazer parte daquele espectáculo?

Mas há mais. O referido relatório europeu divide os 28 países da União em três grupos, e Portugal integra o que está nas piores condições no que toca ao mercado laboral. Pois, é a crise económica, dizem, mas a realidade é que há uma degradação efectiva das condições de trabalho. As pessoas contratadas desde 2012 ocuparam postos de trabalho que exigem uma qualificação inferior à média da população empregada.
Arrasador para as boas novas de S. Bento, o relatório diz ainda que mais de metade da contratação foi para empregos sem necessidade de habilitações especiais e, mais preocupante, que o recrutamento de quadros superiores não chegou a 20% do total e está a baixar em relação à média da população empregada. E vai mais longe: em 2012, quase 60% dos contratos foram a prazo, e os empregos que exigem qualificações médias (a maior parte da população jovem) foram os que mais caíram no recrutamento nos últimos dois anos.

Como se vê, perante este cenário, cruel mas real, o nosso primeiro propõe…estágios, e que sejam as empresas a criá-los, porque o Estado não tem dinheiro para isso. E porque não tem? Porque foi dando condições às empresas para trocarem trabalhadores por estagiários que trabalham de borla, ou quase, na expectativa de um emprego que nunca chega, porque no fim do estágio logo outro lhe ocupa o lugar. Não surpreende por isso que tais multinacionais consigam os lucros que conseguem, à custa da liberalização do mercado de trabalho que transformou empregos em estágios. O que surpreende, de facto,  é que a elite do Governo se tenha prestado a apoiar uma iniciativa privada que procura antes de mais o lucro próprio, em vez de acautelar os interesses do estagiário, descartável no final do prazo de validade.

Luís Figueiredo

 

 

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