Há dias assim, daqueles em que alguém se lembra de que existimos e de que temos uma Cultura que nos distingue e orgulha. Esse alguém foi a Academia Latina de Gravação, que decidiu atribuir um Grammy de carreira ao fadista Carlos do Carmo.

O Grammy em causa, ‘Lifetime Achievement’, é assim como o Prémio Nobel da música, o mais prestigiante das suas inúmeras categorias. E Carlos do Carmo fez bistória ao tornar-se o primeiro artista português a ganhar um Grammy na categoria mais considerada, atribuído apenas aos artistas pelo conjunto da obra (como o Nobel) produzida ao longo da sua carreira e não devido ao êxito mais ou menos fugaz que obtiveram com uma canção ou álbum, o que também é premiado.

De facto, bem vistas as coisas, Carlos do Carmo não foi o primeiro artista português a ganhar um Grammy. Em 2010, a soprano Elisabete Matos recebeu um Grammy por um álbum, ‘La Dolores’, e antes dela também a cantora pop luso-canadiana Nelly Furtado conquistara um Grammy (americano), em 2002, a que somou mais um Latino, em 2010.

Carlos do Carmo é sim o primeiro português a receber o galardão mais conceituado dos Grammy, juntando-se assim a uma galeria de lendas como Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Miles Davis, Bob Dylan, James Brown, Tom Jobim, David Bowie, Leonard Cohen…. só isso já é notável.

O Grammy a Carlos do Carmo é também e sobretudo um reconhecimento da importância do português, de Portugal e da sua cultura, da música, das palavras, da poesia, tudo isso logo agora que celebramos 800 anos de Língua Portuguesa. Que excelente prenda a Portugal.

Além dos méritos artísticos e profissionais do artista Carlos do Carmo, que fundamentam essencialmente a atribuição de tão honrosa distinção, o Grammy é também o resultado do árduo esforço de Carlos do Carmo na candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade, concretizado em Novembro de 2011. Isso mesmo foi reconhecido pela Academia, que realça ainda o trabalho que Carlos do Carmo desenvolveu para o filme ‘Fados’, do espanhol Carlos Saura. Ou seja, o Grammy é o coroar de um processo de criação de uma ‘marca’ cultural portuguesa, o retorno de um investimento na Cultura e, ao mesmo tempo, a afirmação de uma identidade única e singular. Por tudo isso, obrigado Fado, obrigado Carlos do Carmo.

Luís Figueiredo

 

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