Das muitas leituras que se poderão fazer acerca do debate do Estado da Nação, que se realizou por estes dias, uma parece evidente: a Nação prepara-se para eleições e a campanha já começou.

Na verdade, ambas as intervenções do primeiro-ministro e do seu vice apontam nesse sentido: Portugal está melhor e o crescimento é agora a prioridade. Tal como o combate ao desemprego, feita desde já promessa assumida pelo primeiro-ministro. O que não deixa de ser irónico e uma novidade no discurso (falta a acção) que contraria a política que tem sido seguida nos últimos três anos. De facto, se há ‘pecado’ (entre outros) que pode ser apontado a S. Bento é o de ter patrocinado o desemprego, facilitando as condições para que tal aconteça. Com a agravante de que o Estado deixa de receber as contribuições dos despedidos (IRS e Segurança Social), e ainda soma despesa ao ter de pagar os subsídios de desemprego. Mas nem isso demoveu S. Bento a fazer o ‘ajustamento’, com custos gravíssimos e irreparáveis no tecido social. Para o primeiro-ministro, porém, isso é culpa da Economia.

Agora, porém, com o país em suspenso – o Governo não governa até saber com que ‘linhas se cose’ – e as eleições em pano de fundo, o combate ao desemprego passou a prioridade e promessa eleitoral. “Queremos derrotar o desemprego”, clamou o primeiro-ministro, denunciando desde logo que será essa A bandeira da sua campanha.

E não se ficou por aqui a ‘campanha’ dos partidos que sustentam o Governo. Depois do PSD, o CDS, pela voz do vice-primeiro-ministro, anunciou que daqui para a frente o que se impõe é melhorar o salário mínimo, recuperar o rendimento dos pensionistas (tema sensível ao CDS) e repor os cortes nos salários do sector público. Estas serão, seguramente, as ‘bandeiras’ que o CDS irá desfaldrar durante a campanha.

Como não podia deixar de ser, o PS também não perdeu a oportunidade de usar o Estado da Nação para fazer campanha. As cinco propostas de António José Seguro são isso mesmo: promessas eleitorais: aumento do salário mínimo, fim da CES – o que permitiu a correcção do primeiro-ministro, uma vez que foi substituída -, a redução do IVA para 13%…. tudo argumentos de campanha. No caso de Seguro, com a particularidade de que estava também a falar para dentro do seu partido, marcando desde logo posição em relação ao rival Costa, de quem não se conhecem (ainda) propostas concretas.

Neste modo, o debate do Estado da Nação foi bastante clarificador. Estão todos já a fazer-se às eleições e se ao Governo importa apagar o rasto de destruição que deixou, a oposição (PS) não parece inquietada em pedir-lhes responsabilidades por isso. Porque razão o PS – como principal partido da oposição – não questionou o Governo sobre que medidas tenciona aplicar para tapar o buraco de 860 milhões (segundo a ministra das Finanças) criado pelo último chumbo do Constitucional? Não é importante saber com o que vamos contar, tal como o Governo reclama do Tribunal Constitucional?

Porém, focados já no objectivo eleições, os políticos tendem a escamotear as responsabilidades – a culpa foi da Economia -, iludindo a realidade e sacando desde logo de mais promessas para um futuro melhor, como não cortar o rendimento “sempre dos mesmos” e privilegiar a eliminação “das gorduras do Estado”. Foi esse o estado a que chegámos?

Luís Figueiredo

 

 

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