As ‘primárias’ do PS são só em finais de Setembro e até lá o tempo é de simpatizar. Sim, porque os simpatizantes do partido também poderão votar no candidato a primeiro-ministro, que é disso essencialmente que se trata. Como o evidencia bem um cartaz entretanto colocado, a mando da actual direcção (só pode), e mandado retirar por decisão de Jorge Coelho, o indigitado presidente da comissão organizadora das primárias.

O episódio, contudo, revela desde logo a confusão que prometem ser as primárias socialistas. Isto porque na ànsia de se mostrar um partido (muito) à frente, moderno século XXI, o PS vai permitir que simpatizantes possam votar em pé de igualdade com os militantes. O que levanta questões práticas e éticas até. Senão vejamos. Para votarem, os militantes têm de ter as cotas em dia e têm de ter p’lo menos seis meses de fidelização ao partido, isto é, têm de estar inscritos há mais de meio ano, revelou José Sócrates na TV invocando os estatutos. Mas, e os simpatizantes? Além de não contribuirem financeiramente para o partido, como não são militantes não se lhes pode exigir que cumpram os seis meses de ‘carência’ para poderem votar. O que os coloca imediatamente numa posição de vantagen face a militantes com menos de seis meses de fidelização. E depois, que simpatizantes poderão votar? Terão de fazer prova de simpatia?

Na verdade, ninguém sabe, o regulamento ainda não está pronto, mas a polémica está desde já lançada, porque em última instância as primárias poderão abrir as urnas socialistas a votos até de militantes de outros partidos…mas que simpatizam com um dos candidatos a primeiro-ministro. Essa é uma preocupação real, sobretudo desde a revelação de que uma dirigente nacional do partido, colada, portanto, ao candidato da direcção (Seguro) usou uma base de dados de uma associação corporativa (Associação Nacional de Farmácias) para apelar ao voto, dos simpatizantes, no seu candidato (Seguro). Por aqui se vê como se vão recrutar os simpatizantes, tudo poderá servir. ‘Traz um amigo também’ pode muito bem ser o slogan de ambas as campanhas. E o amigo que traga mais outro.

Para já, uma evidência. O candidato ‘da casa’ leva vantagem sobre o desafiador. Os cartazes colocados e retirados, mas que voltarão a aparecer, são obra da campanha do candidato da direcção. Parte na frente, como o demonstra também a página oficial do partido, onde só o secretário-geral surge, e a breve referência às primárias ignora António Costa como candidato.

Posto isto, ou o regulamento fica ‘à prova de bala’, ou as primárias do PS ameaçam ficar para a história como o grande cisma socialista. É que à mínima suspeição de fraude, o candidato que perder poderá recorrer de imediato para a Justiça e as primárias socialistas acabarão nos tribunais. Tudo porque se decidiu que os simpatizantes também têm direito a voto. Não são uns simpáticos estes socialistas?

Luís Figueiredo

 

 

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