A Copa do Mundo de futebol foi sempre uma festa popular em todos os países que patrocinaram e organizaram a competição, que é alimentada de ingredientes emocionais que atravessam os limites do campo de jogo. Sempre achei e acho que é uma disputa saudável para saber qual a nação com os melhores jogadores do planeta. Começou em 1930, no Uruguai, com a equipe da casa derrotando a Argentina na final, por 4 a 2. Em 1934, a Itália venceu a Checoslováquia, também em casa, por 2 a 1, e sagrou-se campeã e repetiu o feito em 1938, vencendo a Hungria, na competição disputada na França. Depois o evento foi interrompido por causa da guerra e só retornou em 1950. Mas, desde esta época, o futebol já era usado como propaganda ideológica. Para fins políticos.

O Brasil é o país que disputou até hoje todas os campeonatos mundiais organizadas pela FIFA – Fédération International de Football Association, desde que a entidade foi criada pelo francês Jules Rimet, em 1938. E é com tristeza e vergonha que lembro que esta taça, que pesava 3,8kg de ouro e que levava o nome deste ilustre desportista, foi roubada em Dezembro de 1983, da sede da Confederação Brasileira de Futebol, na rua da Alfandega, no centro do Rio de Janeiro, e imediatamente dividida em peças menores, derretida e transformada em pequenas barras de ouro e foi vendida. O Brasil ficou com a posse definitiva da Taça Jules Rimet, símbolo e orgulho de uma nação, por ter conquistado por três vezes o mundial de futebol: em 1958, na Suécia, 1962, no Chile, e 1970, no México.

Esta foi uma época de grandes conquistas com jogadores que atuavam em equipes brasileiras. Quando os estádios ficavam lotados com as disputas das competições internas, como a Copa do Brasil ou o Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Esta última competição deu origem ao Campeonato Brasileiro de Futebol e com a fundação do Clube dos Treze, entidade que representava os interesses dos 13 principais clubes brasileiros, o calendário do futebol pareceu ter ficado melhor organizado, mas acabou com a rivalidade dos campeonatos regionais. Encolheu as datas para a realização dos jogos e os torcedores perderam o entusiasmo e o interesse pelo título de campeão carioca ou campeão paulista, ou de campeão mineiro ou campeão gaúcho. E como os atuais políticos colocaram abaixo o Maracanã, e construíram uma Arena para a Copa do Mundo, este estádio nunca mais será o mesmo e nunca mais vai ter um público estimado em mais de 200 mil pessoas, como na final Copa do Mundo de 1950, quando o Brasil foi derrotado por 2 a 1 e os uruguaios sagraram-se campeões mundiais. Porém o público oficial registrado naquele dia foi de 173.850 pagantes, não constituindo o recorde de público que comprou ingresso da história do antigo Maracanã. O maior público oficial é de 183.341 pagantes, registrado no dia 31 de Agosto de 1969, no jogo das eliminatórias da Copa do Mundo de 1970, disputado entre o Brasil e o Paraguai, cujo resultado final foi 1 a 0 para os brasileiros, gol marcado por Pelé. Foi um jogo muito difícil e classificou o Brasil para o Mundial do México.

Neste Mundial de 2014, a presidente Dilma Rousseff tem aproveitado a calmaria e os elogios pelos bons jogos da competição e já começou a se auto-elogiar dizendo, na semana passada, que o país conseguiu «derrotar os pessimistas» e fazer «a Copa das Copas». Segundo Dilma, o que se viu durante o Mundial foram aeroportos «irrepreensíveis» e estádios que «deram um show de bola». «A oposição torceu pelo pior e acabou surpreendida», afirmou a candidata a reeleição. O legado do evento, porém, vai se revelando e vem de fora: é a descoberta de uma tremenda máfia internacional de cambistas que mistura gente da FIFA, empresários, jogadores de futebol, técnicos e outros e que faturou cerca de 200 milhões de dólares só nesta Copa. E internamente, mais duas mortes na conta «das obras da Copa», com o desabamento na semana passada de um viaduto na Pampulha, em Belo Horizonte, numa das vias de acesso ao estádio.

Isso sem falarmos que este Mundial do Brasil custou aos cofres públicos cerca de 40 bilhões de dólares, mais que os 30 bilhões consumidos juntos pelas organizações das provas anteriores: Coreia e Japão, em 2002, a Alemanha, em 2006, e a Africa do Sul, em 2010.

A conclusão vem de um estudo da Consultoria Legislativa do Senado Federal. Mas, fico imaginando ainda, a satisfação e a alegria dos brasileiros do Norte ou do Sul do Brasil, envolvidos com as cheias provocadas pelas chuvas que desabam, com as estradas federais interditadas, com pessoas perdendo seus bens e suas casas e os caminhões parados nas rodovias carregados de mercadorias atolados no meio da lama. Dilma poderia ter ficado calada e esperar pelo final do Mundial. Ela sabe, ou deveria pelo menos saber, que todos os anos, nesta época, as chuvas e as estradas de terra provocam um enorme prejuízo para a economia do país.

José Roberto Tedesco

 

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