A crise no universo Espírito Santo está longe de ter um fim e ameaça transformar-se num terrível caso para a navegação económica nacional. Segundo contas recentes de um economista, Francisco Louçã, ex-bloquista mas economista, o prejuízo do BES poderá ascender a 5% do PIB, qualquer coisa como 33 mil milhões de euros, sensivelmente.

A verdade é que por mais lições de tranquilidade que o Banco de Portugal e o Governo nos venham dar – não se esperaria outra coisa – a coisa está preta mesmo. O perigo maior, qual iceberg, está escondido e tem tudo para surpreender quando menos se espera. O problema não é tanto o BES, o banco, mas as holdings do Grupo Espírito Santo, a ESI (Espírito Santo Internacional), Rioforte (activos não financeiros) e a ESFG (Espírito Santo Financial Group), todas elas em perigo de ‘default’, como o atesta o recente pedido de gestão controlada por parte da ESI. Se a isto somarmos o incumprimento da Rioforte que falhou (ainda não tecnicamente) o pagamento de 900 milhões de euros à PT, e o facto da ESFG não negociar em Bolsa há uma semana, percebe-se um pouco a dimensão da tragédia.

A ameaça maior que paira sobre o BES, o banco, reside precisamente nestas holdings. É que elas detêm parte do BES, a ESFG, por exemplo, detém 25% do banco… e está suspensa em bolsa. Como pode o BES estar bem quando um quarto do seu capital está sabe-se lá onde?

São, de facto, estas ligações perigosas que acabam fazendo perigar o BES e o império Espírito Santo. Mas não só. É que ao longo de décadas de domínio absoluto do DDT (Dono Disto Tudo, como era conhecido Ricardo Salgado) o universo Espírito Santo ‘infectou’ todos os domínios da economia, que tremem agora com a exposição ao grupo. É o caso mais evidente da PT, que acaba de engolir um novo e forçado acordo de fusão com a Oi, que lhe rouba um pedaço do inicialmente combinado na futura empresa. Tudo por via da perda de 900 milhões de euros num ‘investimento’ na Rioforte, que não pagou ainda.

Mas há mais, muito mais, e daí que não surpreendam até as investigações de que o grupo está a ser alvo por parte do Ministério Público. A crença é de que não há fumo sem fogo. E há mesmo muita fumaça no ar.

Os fundos de investimento portugueses, por exemplo, têm uma exposição de 257 milhões de euros ao BES ou ao grupo, os clubes de futebol (os três grandes) pelo menos 215 milhões. Como se não bastasse, a CGD (Caixa Geral de Depósitos), banco público detém 15% da ESFG, a mesma que tem 25% do BES, ou seja, a CGD está neste momento bastante exposta e vulnerável, com 32 milhões de acções nas mãos…que não podem ser negociadas.

Mas como este há muitos outros negócios e firmas que estão agora em suspenso. Fruto de uma política de investimentos a que não é certamente alheio o tráfico de influências, o grupo estendeu-se também à comunicação social, detendo a par da CGD papel comercial no valor de 66 milhões de euros de um grande operador de mídia em Portugal, a Impresa, de Pinto Balsemão, ex-primeiro-ministro, fundador do PSD e personalidade influente até na restrita comunidade de Bilderberg. A maturidade está agendada para o final deste ano, mas com toda esta agitação no grupo e contas de milhões a descoberto ninguém pode afirmar com rigor o que se vai passar. Ou seja, o que a crise no BES veio mostrar foi que os bancos mantiveram, e mantêm porventura, negócios ditados por interesses que vão muito para para além do comercial e que, muitas vezes se revelam ruinosos para os próprios. Foi nessa lógica que investiu a PT quando emprestou os 900 milhões ao Grupo Espírito Santo. O resultado é que já perdeu mais em Bolsa do que os 900 milhões (perdidos?) no investimento no Grupo Espírito Santo, que por sua vez é um dos principais accionistas da operadora.

Como se vê, é esta promiscuidade nos negócios que acaba minando a economia e instalando o descrédito na economia de mercado. O BES é apenas a ponta do iceberg, a face visível de um problema de dimensão desconhecida que ameaça levar à intervenção do Estado. É que se não o fizer, muitas mais empresas, e empregos, poderão vir a tombar como peças de dominó arrastadas pelas exposições mais ou menos directas à banca e ao GES em particular.

Luís Figueiredo

 

 

Comentários

comentários