Num recente artigo o magazine “Le Courrier International” (edição nº. 1234, de 26.Junho-2.Julho.2014) apresenta-nos um Médio Oriente sob o espectro do secessionismo devido, em grande parte, aos movimentos islamitas locais e, em particular, ao ataque dos jihadistas do califado do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL).

De acordo com o mapa apresentado alguns Estados da região que se apresentam, tecnicamente, consolidados, acabam por se verem cindidos em vários novos Estados; por exemplo o reino saudita é dividido em três ou cinco novos Estados, os iemenitas voltam a se dividirem em Norte e Sul; o Iraque não só desaparece como entidade una, como o ataque dos islamitas do califado permitirá, segundo aquele mídia internacional, que o Curdistão ressurja das cinzas o que, naturalmente, poderá provocar sérios conflitos nos países por quem o Curdistão foi dividido: Turquia, Síria, Iraque, Irão…

Também a Síria poderá desaparecer dando lugar a um novo e minúsculo Estado Alaouita e parte restante integrada num Estado Sunita juntamente com parte do Iraque. E não esquecer que o EIIL visa não só a restauração do Califado do Iraque como de todo o antigo império muçulmano e que ia desde Bagdad até à Península Ibérica, passando por todo o território do Norte de África.

Só que os Governos desta antiga possessão muçulmana continuam a assobiar para o lado e desprezar os movimentos jihadistas como se nada se passasse. A presença de muitos ocidentais junto dos islamitas que combatem na Síria e a recente detenção de um pretenso jihadista no aeroporto de Lisboa, um holandês de origem angolana, só colocam – ou deveriam colocar – de prevenção todos os Estados passíveis de serem divididos ou reformulados.

Mas esta é uma situação que não deve ser silenciada em muitos países onde o secessionismo está bem latente ou em clara emergência.

Recordemos o caso da Espanha com os catalães a prepararem-se para um plebiscito visando a independência da Catalunha ou dos bascos para quem a autonomia já não chega e consideram ir pelo mesmo caminho que os catalães com a particularidade dos bascos estarem divididos entre Espanha e França e com os franceses acharem que os problemas só sobrarão aos seus vizinhos espanhóis. Nada mais errado!

Também no Reino Unido a Escócia prepara-se para plebiscitar a sua independência. Os escoceses, ao contrário dos catalães e dos bascos que recebem dos espanhóis impedimentos vários e constitucionais, têm o acordo e o beneplácito dos britânicos.

E a questão do secessionismo não se fica somente pela Europa, em parte devido a históricas e mal conduzidas reformulações territoriais, algumas depois da I e da II Guerras Mundiais e do estilhaçar da antiga União Soviética com as fronteiras artificiais a serem, ultimamente – recorde-se o caso ucraniano – claramente questionadas, sob o espectro dos nacionalismos e dos migrantes linguísticos.

Também no Brasil, por exemplo um dos Estados do Sul, predominantemente de raiz germânica e branca, ponderou um referendo para a sua independência: falo do Rio Grande do Sul e, embora em menor escala, de Santa Catarina. Acresce que na Venezuela, com os problemas políticos emergentes, também alguns Estados já ponderaram sair da República Bolivariana.

E se na América Latina há essas expectativas pró-secessionistas, também nós temos esse problema bem vigente e que não deve ser calado sob pena de uma situação latente mas sem clara evidência acabar como uma doença pandémica e se tornar impossível de controlar. Não esquecer que, normalmente, há sempre interesses exógenos por detrás destes movimentos secessionistas – movimentos políticos, culturais e económicos.

Também em África o perigo do secessionismo está cada vez mais latente. Na Líbia, o mesmo Le Courrier apresenta-nos um país dividido em três novos Estados: Tripolitânia, Cirenaica e Fezann; ou na Nigéria, os islamitas querem – tal como tentaram, recentemente, no Mali e procuram-no fazer na República Centro-Africana – separar a região norte, de predominância islamita, do resto do país e criar uma república islâmica.

E no nosso caso, é preciso não esquecer Cabinda e as Lundas…

Desprezar o secessionismo e achá-lo como “uma moda” é um perigo que não deve prevalecer.

A Catalunha, o País Basco e a Ucrânia são exemplos fortes de como um povo pode estar “adormecido” mas não “esquecido” e à primeira oportunidade procura fazer valer os seus pontos de vista, mesmo que usem meios menos convencionais ou “desprezem” as Constituições nacionais.

A vontade de um Povo nunca pode nem deve ser esquecida sob pena dos Governos perderam a capacidade de diálogo e/ou perderem o território nacional.

Eugénio Costa Almeida, Ph.D
Investigador/Researcher do CEI (ISCTE-IUL)

Artigo de Opinião publicado no semanário angolano Novo Jornal, secção “1º Caderno” ed. 339 de 25-Julho-2014, pág. 22)

 

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