«O povo português, destinatário da liberdade conquistada, encontra-se desiludido, desencantado e desinteressado da política espectáculo que rege o seu destino. Os senhores da política continuam, como no antigamente, a tratá-lo como matéria bruta a quem se ilude e mente, e a quem se esquece no dia seguinte ao das eleições. A prática caciqueira eleitoralista voltou a imperar em Portugal. A saída dos militares da cena política, com a revisão constitucional e a extinção do Conselho da Revolução, deu origem à «asfixia partidária» que constatamos. Tudo se resume aos partidos, não tendo capacidade de intervenção na vida política quem a eles não pertença. O caciquismo e a monopolização partidária da vida pública fez reaparecer o medo de falar, por receio de represálias, políticas ou outras.

Parente este cenário, quem fez o 25 de Abril não podia ficar pela desilusão e pelo lamento. Considerámos ter o dever de agir no sentido de tentar contrariar toda esta triste realidade, lutando pela reposição das esperanças geradas naquele dia ao povo português. Justifica-se deste modo o aparecimento de um partido novo; justifica-se assim a nossa inclusão nas listas desse partido, porque os «partidos velhos» surgem a cada nova campanha eleitoral como se de novos se tratasse. Pretendem fazer crer que nada tiveram a ver com a situação desesperada em que vive o povo português. É como se tivessem nascido agora, mas na verdade, foram eles que nos trouxeram até aqui. Em campanha eleitoral dizem que sabem muito bem como resolver a situação e que daqui para a frente é que vai ser. Quem criou a crise e nos trouxe até aqui, não tem capacidade para a resolver, caso contrário não a criaria».

Texto composto com base em esboço encontrado no espólio de Vítor Alves, que se encontra no Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra. Os apontamentos destinavam-se à elaboração do discurso que este capitão de Abril proferiu em Beja, em 3 de Outubro de 1985, no encerramento da campanha eleitoral das Legislativas desse ano, quando foi cabeça de lista pelo PRD. Não foi eleito.

Carlos Ademar

 

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