Acompanho com regularidade as notícias sobre o mais novo País do Séc XXI, Timor – Leste e há uns dias a esta parte a política local agitou-se à volta de um artigo de opinião cujo título em inglês “The World’s Youngest Failed State” (Madhu Narasimhan, 12 de Agosto de 2014) traduzia um mau prenúncio sobre o futuro e retratava um fatalista prognóstico do desenvolvimento da República Democrática de Timor-Leste. Após a leitura do artigo que apesar de tudo merece reflexão, a primeira reacção que me ocorreu foi a de ser levado a comparar com a realidade portuguesa. Um território que foi sujeito a 4 séculos de colonialismo, 24 anos de brutal ocupação, com apenas 12 anos de democracia, com um governo estável e uma oposição participativa, com uma economia a crescer 2 dígitos anualmente, com um fundo soberano do petróleo que se cifra já em 16,6 bilhões de dólares americanos pode ser considerado um Estado falhado? E nós por cá? Adiante…

É facto que Timor – Leste não pode sustentar a sua economia no petróleo, que tem que caminhar para uma equilibrada industrialização dos seus recursos naturais, para uma melhor distribuição da riqueza reduzindo as assimetrias Dili versus distritos, para uma significativa melhoria das infra-estruturas rodoviárias, para uma maior qualificação dos seus quadros, para uma melhoria dos níveis de alfabetização, para um melhor acesso e mais oferta na saúde, para uma melhor promoção das suas capacidades turísticas, etc. mas Roma e Pavia como diz o ditado e contra-argumentou o Ministro Ágio Pereira em direito de resposta, não se fizeram num dia e nem sequer em 12 anos.

Timor-Leste dispõe de recursos naturais suficientes para se tornar um País desenvolvido com uma economia sustentável e embora os seus governantes devam ter presente que o petróleo e o gás não duram eternamente têm no turismo, na indústria agro-alimentar, na pesca, no café, arroz, etc e na capacidade de sacrifício dos timorenses os ingredientes suficientes para com tempo e vontade demonstrarem quão errados estão estes profetas da desgraça que por sistema vaticinam para o povo maubere.

Na costa sul de Timor-Leste, no Projecto Tasi Mane (Mar de Timor), o Governo estima que as reservas de hidrocarbonetos ricos que Timor-Leste ali possui ainda possam render um adicional de 60 bilhões USD. Para tal, o projecto inclui a construção de uma refinaria, de um porto marítimo e três aeroportos regionais, o primeiro dos quais estará pronto em 2016 e estabelece um corredor de 100 milhas ao longo costa sul com infra-estruturas para transporte, água e eletricidade. Ficará nessa fase disponível o acesso fácil a 2.500 hectares de terras adequados para indústrias como a pecuária, horticultura, silvicultura, etc.

No Oecussi, o modelo de economia social de mercado que Mari Alkatiri para ali preconiza e lidera, irá por certo transformar uma zona pobre e abandonada numa área de referência na região e de interesse para o investimento privado. A construção das infra-estruturas para ali previstas, aeroporto, hospital, escolas, etc a par do modelo de governação de zona económica especial podem a breve prazo ser demonstração evidente que o petróleo ajuda mas não é a base de tudo em Timor Leste.

O Plano Estratégico de Desenvolvimento do País foi desenhado para 20 anos, e inclui políticas e programas, para conseguir que cada criança timorense tenha acesso à educação, que cada família disponha de serviços médicos de qualidade, de luz, água e saneamento básico, que o País disponha de uma mais eficiente rede de estradas, de um aeroporto melhorado, de um governo mais funcional e desburocratizado, de garantia de segurança e naturalmente do respeito da sua soberania nomeadamente na sua fronteira marítima. Ora, um País com esta visão é um Estado falhado? Significa isso que está nesse caso tudo bem? É claro que há muito ainda a fazer com o povo e para o povo. Para concretizar os objectivos do Plano Estratégico e desenvolver o País é preciso recursos, de facto, mas é também necessário que o Governo trabalhe para essas finalidades e que o faça com tempo ao serviço do povo ao mesmo tempo que é preciso que a oposição fiscalize, escrutine e apresente propostas alternativas para os caminhos que entenda inadequados não sendo uma mera força de bloqueio. O povo quer e precisa de melhor qualidade de vida, quer ver o referido Plano a ser concretizado e quer que os seus governantes se concentrem nisso. O comum cidadão timorense dispensa luxos na mesma medida que dispensa as notícias de gastos de um milhão USD em “karetas” do Estado mas deseja ter no mínimo a esperança de que os bilhões do petróleo serão garantia mínima do futuro dos seus filhos, que é o mesmo que dizer do futuro de Timor – Leste.

Críticas à Justiça ou à falta dela, à corrupção instalada entre política e negócios, à incompetência dos seus governantes… algumas porventura justificadas, outras certamente desmerecidas, dificilmente deixarão de acontecer e sobretudo num País onde a democracia ainda respira juventude. É isso que faz desta democracia um sistema falhado? E aqui chegado, não consigo evitar de novo a comparação com Portugal. Olhem, adiante… Bom trabalho, Timor!

Fernando Figueiredo

 

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