Dirigentes britânicos, mas também de outros países europeus, e até de fora do velho continente, sorriram quando foram conhecidos os resultados do referendo na Escócia. Ninguém, nem eles, sabe quais seriam os efeitos naquela nação britânica e na Europa se o SIM ganhasse, mas adivinhavam que muita coisa podia mudar. A mudança assusta. Alívio é, talvez, a palavra certa para definir os estados de alma de toda esta gente.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, durante a campanha, prometeu aos escoceses tudo quanto nenhum dos seus antecessores quis oferecer ao longo dos séculos. Quando faltou o que prometer, ameaçou que quem saísse do Reino Unido não tinha reentrada garantida. O empate técnico que as sondagens mostravam nos últimos dias antes das eleições, fez os seus efeitos e mobilizou a esmagadora maioria dos escoceses, que deram uma enorme demonstração de cultura democrática. Não obstante o caso sério que estava em causa e as paixões que gerou, o povo, com uma ou outra escaramuça, esteve à altura do momento. Já agora, se excluirmos o clima de medo aos eleitores que o poder central do Reino Unido tentou incutir, ao permitir de forma livre dar a palavra aos escoceses, declarando que aceitaria a sua vontade, também deu uma demonstração de grande maturidade democrática, que não se sente, por exemplo em Espanha.

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Parece-nos, no entanto, que os vencedores exorbitaram nos festejos. É verdade que desta vez não venceu o SIM, mas lembro que os seus defensores quase chegaram aos 45%. O machado estará sempre pendente sobre as cabeças de quem manda a partir de Londres, porque em qualquer altura, os escoceses podem voltar a abrir a ferida. Mesmo tendo vencido o NÃO, nada voltará a ser como foi até aqui.

Não ignorando que a vitória do SIM potenciaria e faria alastrar mais rapidamente a ânsia independentista pela Europa, o facto de se ter realizado o referendo, só por si, não deixará de ter efeitos em muitas regiões onde há muito se luta por que se dê a oportunidade ao povo de decidir o que pretende para o seu futuro. Resta saber se, os poderes dos países onde tal acontece, terão a sabedoria para propiciar a abertura que o Reino Unido demonstrou.

É difícil resistir aos ventos da História. Portugal fê-lo no que respeita às suas antigas colónias, ao insistir em mantê-las quando as outras potências europeias abdicaram das suas, abrindo caminho à independência de África nos anos cinquenta e princípio dos anos sessenta. A teimosia do regime português custou-nos uma longa e dolorosa guerra com três frentes, milhares de mortos de um e do outro lado da barricada, bem como uma descolonização apressada e traumática para muitas centenas de milhares de portugueses que viviam nas antigas províncias.

O século XIX ficou marcado pela unificação da Alemanha, da Itália, da Bélgica. Já outros países o haviam feito ao longo dos séculos, como são os casos da Espanha, França e Reino Unido. Estas agregações deram-se quase sempre com recurso à força e, num número menor de situações, por acordos, quase sempre matrimoniais.

A actual União Europeia nasceu também com o obectivo de fazer esbater estes laivos independentistas, que sempre se foram fazendo sentir, através do aumento dos níveis de desenvolvimento do espaço europeu, e da construção de uma comunidade comum de tal modo alargada, que esvaziasse de sentido as ambições independentistas. Acontece que a crise instalada em 2008, e que queima em se manter, veio alterar o panorama político partidário em vários países europeus, onde forças políticas de cariz mais extremista, têm conseguido ganhar ascendência como não se via desde os anos trinta, pondo em causa os partidos tradicionais.

É nesta instabilidade política, social, mas também de confiança no futuro, que encontramos as razões para esta onda de independentismo que tem vindo a crescer por essa Europa, tocando muitos dos seus mais importantes países. Por esta razão, não é indiferente à União Europeia o que se tem vindo a passar e, mais grave do que isso, o que se pode vir a passar daqui para a frente. A Catalunha, teima em fazer um referendo que Madrid não quer autorizar; o desmoronamento do Reino da Bélgica já foi anunciado informalmente mais do que uma vez; já este ano, Veneza fez um referendo não vinculativo, em que o SIM à independência ganhou; também a Alemanha está com problemas com a Baviera, onde cerca de 20% da sua população é defensora da independência. Por estes dias, os ventos da História parecem soprar a favor das independências de certas regiões que há mais ou menos tempo se encontram integradas com outros povos. No caso da Espanha, além da Catalunha, tem várias outras regiões a reivindicar um estatuto de maior autonomia, se não mesmo a independência. Será que Madrid vai ceder? E até que ponto poderá resistir? E cedendo Madrid, será que as forças armadas espanholas aceitarão como hipótese a fragmentação da Espanha? Perguntas que ficam a aguardar as respostas que ameaçam não tardar.

Foi a crise que começou por ser financeira, que inflamou as feridas independentistas. Quanto mais depressa a crise passar, mais depressa elas sararão. Já que a perda de qualidade de vida dos europeus, que, em alguns casos sofreram mesmo um acentuado retrocesso civilizacional, não impressionou quem, podendo fazer mais por resolver os problemas, não age com a celeridade recomendável, que a ameaça de fragmentação dos países integrantes da União Europeia, e, com eles, da própria União Europeia, sirva de tónico para levar à rápida resolução dos problemas que nos últimos anos tanto têm afligido o velho continente.

Carlos Ademar

 

 

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