Não te lembras de mim, nem tal te é exigível. Mas já percebeste: trato-te por tu. Não somos camaradas do mesmo partido, mas já fomos. Conhecemo-nos pelos 15, 16 anos. A democracia dava os primeiros passos e nós também, fora da órbita familiar. Já nessa altura tinhas responsabilidades na Juventude Socialista, para onde entraste pela mão do seu primeiro secretário-geral, Arons de Carvalho. Com ele te deslocaste à sede do Cacém, porque uma “tendência de esquerda”, resultante da cisão trotskista liderada por Carmelinda Pereira e Aires Rodrigues, ali ganhara muitos adeptos e era preciso pôr a casa em ordem.

Sentados à mesma mesa foi o nosso único encontro. Pouco depois eu afastei-me e tu continuaste nas lides políticas, granjeando apoios e simpatias, certamente merecidos uns e outras. Da tua carreira política não me interessa a subida de burro da Calçada de Carriche, em competição com um carrão, não obstante a vitória do burro. Quero sim, fazer referência às boas memórias que deixaste na passagem pelo Ministério da Justiça, onde trabalho há mais de um quarto de século. Quero também dizer-te o quanto lamentei que não tivesses avançado no lugar de José Sócrates para o cargo de secretário-geral, e nem sabes os nomes que te chamei quando não te bateste contra António José Seguro (AJS) quando este assumiu a liderança do PS.

Hoje, os analistas políticos dizem que tudo não passou de pura estratégia, por teres sabido esperar pelo tempo certo – acertam sempre no resultado dos jogos nas manhãs de segunda-feira. Não tenho elementos que possam conduzir o meu pensamento para um ou outro lado. Mas há uma coisa em que não acredito, na traição de que foste acusado. Tenho para mim que só avançaste – e fiquei feliz quando o fizeste -, porque percebeste a sabedoria do eleitorado português nas últimas eleições europeias. O povo português quis castigar com um resultado humilhante (o mais baixo de sempre, considerando a soma dos dois partidos) a coligação governamental mais reacionária que a história da democracia conheceu. Com ela, Portugal não só quebrou um ciclo de desenvolvimento civilizacional, que jamais conhecera ao longo da sua já longa história, como recuou vários anos com a regressão económica imposta e a perda de algumas conquistas só possíveis com o 25 de Abril, e até outras que já vinham do tempo do marcelismo, na sua então busca de apoio popular. O eleitorado português brindou o PSD e o CDS com uns míseros 27%, mas ao dar a vitória ao PS, fê-lo atribuindo-lhe 30% dos votos: a vitória mais baixa que um partido português conseguiu, se excluirmos as legislativas de 1985, quando surgiu o terramoto chamado PRD, levando a que Cavaco Silva formasse governo com menos de 30%.

Com estes resultados, o eleitorado quis significar que aquele PS não era alternativa. Na verdade, ao longo de três anos, António José Seguro pautou a sua actuação por deixar correr o marfim, sem fazer muitas ondas, certo de que a política que estava a ser seguida pelo Governo seria suficiente para o levar a S. Bento como primeiro-ministro. Bastava ficar quieto, não dizer nada ou muito pouco. Acima de tudo não arriscar. O tempo se encarregaria do resto.

Acontece que os resultados das europeias fizeram soar todos os sinais de alerta do lado de uma esquerda que ambiciona a mudança, que aspira, essencialmente, varrer da liderança do País quem fez questão de afirmar que queria ir mais longe do que a Troika exigia. E foi! Para mal de todos nós. É absolutamente vital para o povo português enviar esta gente para longe de todos nós. E na verdade, os três por cento que o PS levou de vantagem sobre a coligação, não davam, de forma alguma, garantia de que essa mudança se daria. Bem pelo contrário. Quaisquer medidas eleitoralistas – como as que já se vão sentindo -, tomadas pelo Governo em ano de eleições, seriam suficientes para que em 2015, a coligação renovasse a maioria parlamentar. António José Seguro mostrou não ser o homem certo para apresentar alternativas credíveis de forma a motivar os portugueses, dizendo-lhes, claramente, que a política que tem vindo a ser seguida, não é inevitável. É possível fazer muito melhor em prol dos portugueses, não obstante as condições adversas.

Avançaste e fizeste muito bem. Não vou analisar os resultados das primárias, que, de resto, não se revelaram surpreendentes para mim. Confesso até que esperava uma diferença ainda maior e ela só não foi conseguida, porque AJS usou e abusou, ilegitimamente, como já dei conta, do termo “traição”, fez-se de vítima e a vitimização continua a ser um bom argumento eleitoral. Quero é realçar a mobilização que estas eleições geraram (tal a vontade de mudar), certo, contudo, de que esta mobilização foi apenas o nascimento de uma onda que vai crescer entre os muitos descrentes na política, para no dia das próximas eleições cair sobre as cabeças de quem arrastou Portugal para o estado em que se encontra: triste, pobre, envergonhado e sem esperança.

Atenção à factura, António. Não te podes dar ao luxo de desbaratar a mobilização que conseguiste, e mais ainda a que vais conseguir, transformando esta esperança que geraste em mais uma desilusão, quiçá, para muitos a derradeira. Não o podes fazer. A responsabilidade está do teu lado. Não te vou dizer o que deves fazer, tu saberás. Ainda assim, como alguém que se encontra fora dos meandros políticos, digo-te o que é voz corrente cá por baixo, e me parece essencial que tenhas em conta. Acredito na tua sabedoria. Ela te levará a não marginalizar a gente boa que apoiou AJS. O poder que vais constituir precisa de muita dessa gente. Saberás separar o trigo do joio dos que à tua volta se concentraram antes e depois da tua vitória; vi muitas caras bem conhecidas, que, por diversas razões, não deixaram saudades quando passaram pelo poder. A tua sabedoria levar-te-á a recuperar algumas ideias que Seguro deu a conhecer – quando começou a falar. Não me refiro à redução do número de deputados, pura demagogia sem uma nova lei eleitoral, mas de uma absoluta necessidade de estreitar a ligação entre eleitos e eleitores. Os eleitos não podem, como sempre fizeram, lembrar-se dos eleitores apenas quando precisam dos seus votos. É preciso aproximar os portugueses da política, António. A participação dos portugueses não se pode resumir ao papel de mero votante. Faz lá como entenderes, mas não o esqueças – é vital para a democracia.

Muito cuidado com a ligação dos eleitos políticos aos negócios. A carne é fraca, bem o sabemos, e não vale a pena arriscar, mas muito menos vale pôr a cabeça na areia. Interdição completa a esse tipo de ligações. Às comissões parlamentares não pode pertencer gente com interesses negociais aos assuntos que estão em discussão. Jamais! Não basta ser é preciso parecer. Têm sido muitos os casos em que a classe política aparece chamuscada. Basta! A descrença alastra também por via disso. Os políticos não podem ficar-se por um altamente suspeito: «Provem!». Além de ser é preciso parecer. Por fim, o Estado não pode cobrar dívidas aos privados quando lhe faltam meios para cobrar as suas. É preciso mais Estado, António. Os portugueses têm de voltar a acreditar. Dá ouvidos aos anseios de esquerda dos que te elegeram.

Não gosto de fantasiar, vais ser rodeado de muitos tubarões que pensam em tudo menos no interesse público. Está atento aos sinais e que não te falte a coragem de os afastar. Tu, e só tu, és o responsável por esta onda de esperança que vai crescer, não desbarates a confiança que em ti depositamos.

Carlos Ademar

 

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