O século XX ficou marcado pelas guerras mais mortíferas que jamais o Homem conheceu, mas também pela confrontação entre a Rússia comunista, depois transformada em União Soviética, e o Ocidente capitalista, liderado pelos EUA. Esta confrontação só teve interregno, ainda assim com muitos olhares de soslaio mútuos, aquando da II Guerra Mundial, porque ambas as partes se aliaram no combate à Alemanha de Hitler.

Ainda as armas impunham as regras, embora já se adivinhasse o desfecho do conflito, e os EUA e a União Soviética regateavam já as zonas de influência para cada um dos blocos. E esta tensão recrudesceu e muito, após a rendição alemã, mantendo-se até ao desmoronamento do bloco de Leste e da União Soviética, o que sucedeu em catadupa após a queda do Muro de Berlim, 1989.
Esta confrontação estendeu-se a todo o globo e foi responsável por inúmeras guerras fratricidas e revoluções sangrentas em todos os continentes. Porém, os líderes de cada um dos blocos nunca se digladiaram directamente. Era a “guerra fria”.

Com o desmembramento da União Soviética, seria legítimo que se pensasse que a “guerra fria” e a política de costas voltadas, mas sempre de olhos bem abertos, que pautou esses tempos, era coisa do passado, fruto de visões políticas antagónicas já sem sentido por falência de uma delas. A última década do século XX foi dura para a Rússia, por se ver mergulhada numa crise profunda, em que a causa principal talvez fosse a compreensível falta de confiança, de amor-próprio. Metade da população sumira-se nas muitas repúblicas que então se tornaram países independentes; a influência da Rússia no mundo, que marcara as últimas gerações do país, desaparecera subitamente, o que para o orgulho do povo russo, não foi coisa de somenos importância; a sociedade perfeita que estava em construção há décadas, desabara como um baralho de cartas sobre a cabeça do homem novo, que os pais da pátria não se cansavam de apregoar.

Entretanto, o novo século trouxe um outro inimigo para o Ocidente: o fundamentalismo islâmico, cuja pressão tem aumentado. Tudo o que o Ocidente fez para o combater também não foi de molde a resolver o problema de forma saudável. A violência contra a violência, em circunstâncias em que uma das partes está obstinada pelo fanatismo e consegue infiltrar os seus com relativa facilidade nos grandes centros urbanos do inimigo com intuitos maléficos, leva a concluir que talvez a política de combate do Ocidente não se tenha pautado por índices elevados de inteligência. Reagiu da forma tradicional contra um inimigo que dispunha de armas diferentes das tradicionais.

Enquanto o Ocidente se foi preocupando com o fundamentalismo islâmico, a Rússia renascia dos destroços em que ficara no início da década de noventa; ganhava parte do músculo que perdera. A Nato, que foi criada para combater as ameaças que podiam nascer no bloco de Leste, aproveitou o desnorte da Rússia para ir conquistando adeptos e simpatias junto dos antigos países satélites dos soviéticos e até em alguns que haviam pertencido à União Soviética. À medida que a Nato se ia aproximando da Rússia, esta ia dando sinais do seu desconforto com a situação, com uma tão arrogante como irresponsável negligência por parte dos ocidentais.
O desmoronamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que aconteceu vai para um quarto de século, está muito longe de ser resolvido. A questão apenas esteve adormecida enquanto a Rússia arrumava a casa. Após alguns arrufos que foram desvalorizados, a gota de água que devia fazer soar os alarmes do Ocidente foi a crise na Ucrânia. Parte do território deste país integra o que foi o berço da Rússia. O Principado de Kiev esteve na origem da Rússia. A Ucrânia é um país dividido, com uma significativa percentagem da sua população composta por russos ou deles descendentes, particularmente nas regiões mais a Leste, que há largos meses se encontram em estado de guerra. E tudo porque a pressão ocidental fez-se sentir na Ucrânia. Ainda que os dirigentes no poder tivessem sido eleitos, os não russos ucranianos cederam à tentação e também quiseram a sua “primavera”, e as manifestações de rua foram de molde a fazer cair o presidente, pró-russo, tomando o seu lugar outros mais dados ao Ocidente, alguns dos quais, dizem as notícias, com preferências políticas bem próximas do nazismo.

Para a Rússia, a Crimeia foi um teste que correu bem e que terá alimentado o desejo, que já existia, de abocanhar meia Ucrânia. Aqui, o Ocidente empertigou-se e declarou guerra comercial à Rússia, esquecendo-se que esta tem na mão a torneira que controla o fornecimento de gás a meia Europa, desde logo à Ucrânia e à Alemanha. Putin é um mistério, embora já se tenha percebido como trata quem lhe pode fazer sombra política. Já se percebeu também que estratégia urdiu para se perpetuar no poder em conluio com Medvedev, que faz um mandato quando Putin, face à lei, não pode continuar a concorrer à presidência. Feita a pausa, pode regressar à cadeira presidencial para dois mandatos enquanto o outro regressa ao lugar de primeiro-ministro, que fora ocupado por Putin quando não pôde ser presidente. Confuso? Assim vai a democracia.

As últimas notícias que li sobre Putin atribuíam-lhe uma fortuna colossal, cujas origens se desconhecem. Enfim, como perfil da primeira figura do maior país do mundo, não está mal. Não se pode deixar de anotar os sistemáticos excessos, certamente estratégicos, que Putin e a Rússia têm vindo a cometer junto de países vizinhos, alguns membros da Nato; autenticas demonstrações de força, que não podem deixar de ser considerados provocatórios e por isso perigosos. Notícias mais recentes dão conta que os seus aviões militares já atravessaram toda a Europa e chegaram ao espaço aéreo português. Segundo as mesmas notícias, são voos clandestinos face ao estipulado internacionalmente, porque os respectivos pilotos não forneceram os planos do voo, pondo assim em perigo as carreiras comerciais, nem responderam às comunicações que receberam de terra ou de outras aeronaves encarregadas de os acompanhar.

O que faz correr Putin? Que aconteceria se algum avião da Nato sobrevoasse espaço aéreo russo? Que acontecerá se, nas intercepções efectuadas, um piloto se precipitar e carregar no botão errado? Se na “guerra fria” este tipo de investidas eram raríssimas, porque acontecem com tanta frequência por estes dias? São muitas perguntas que não têm resposta fácil. Mesmo sem respostas, estamos em crer que se vai brincando com o fogo. Desejando ardentemente que ninguém se queime, uma conclusão se pode tirar: a “guerra fria” está a aquecer.

Carlos Ademar

 

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