Tenho para mim que Manuel Maria Carrilho foi o melhor ministro da Cultura que este País conheceu depois do 25 de Abril. Podemos aligeirar a sua responsabilidade nesta matéria se dissermos que ele governou em tempo de vacas gordas, porque não foge à verdade face à crise que conhecemos e sofremos desde há alguns anos. No entanto, é também verdade que nos tempos imediatamente anteriores, as vacas eram talvez ainda mais gordas e obra feita na área da cultura não se vê. A excepção é o CCB, que sendo um equipamento cultural de grande relevância no panorama português, nasceu mais depressa para servir de sede à presidência portuguesa da União Europeia, se a memória não me atraiçoa. O que distingue o mandato de Carrilho de outros, antes e depois dele, é o desenho estratégico para a cultura que então se sentiu. Viam-se as coisas a acontecer e pareciam ter uma lógica de quem planeia e sabe o que está a fazer.

Dito isto, que me parece justo, acrescento que nunca a figura de MM Carrilho me inspirou simpatia.
Não pode ditar nada de bom, em termos da sua personalidade, a resistência no reconhecimento da paternidade de uma sua filha, nascida de uma relação com uma aluna. Quando concordou com o reconhecimento, o que sucedeu ao fim de alguns anos, fê-lo na condição de não ter encargos com ela – assim rezam as publicações que abordaram o tema. Sem falsos moralismos, não minimizemos aqui a ética, ou falta dela, quando, estando num patamar superior, o de professor, se permitiu envolver-se com uma aluna.

Mais recentemente, os jornais deram conta de nova situação embaraçosa. O que parecia ser o casamento modelo, a bela e o filósofo, pela repercussão que lhe foi atribuída pelos periódicos, estava no fim. Não sei o que se passou entre Carrilho e a sua ex-mulher, a vedeta de televisão Bárbara Guimarães. Desconheço se houve ou não agressões e, a terem existido, quem agrediu quem e em que moldes. Mas não me é possível ignorar o que vi e todos tivemos oportunidade de ver, porque saiu em várias publicações e não podemos deixar de considerar ser bem revelador de uma personalidade. O professor de Filosofia apontava para uma mesa de jardim de uma casa particular e dizia ter sido ali que ela, a ex-mulher, ficava a beber com o pai até ambos ficarem embriagados. Não é só deselegância, é baixeza de espírito, bem demonstrativa de uma forma de estar na vida pouco saudável, socialmente falando. E nem me importa saber o que realmente se passou.

Nos últimos dias, nova saída de Carrilho a terreiro para acusar o Governo. Um qualquer organismo deste dependente convidou Bárbara Guimarães para marcar presença num simpósio sobre violência doméstica. Alegou o filósofo que os factos estavam em tribunal e que ainda não era conhecida qualquer decisão. Por via disso, acusou até o Governo de violar a Constituição – no que, diga-se, esta equipa governamental é useira e vezeira, como é bem conhecido -, por não ter respeitado o preceito basilar de in dubio pro reu.

Na verdade, nestas circunstâncias, parece-nos pertinente levantar a questão do convite formulado a Bárbara Guimarães, exactamente pela argumentação usada por Carrilho: o caso está a ser investigado; ainda não há decisão do tribunal, pelo que, para todos os efeitos, não sabemos o que realmente se passou. Bárbara poderá ter falado numa qualidade que não sabemos se é legítima. Assim sendo, não ficando em causa a decisão judicial, para todos quantos souberam do convite e das razões que o justificaram, independentemente do papel que a senhora teve no simpósio, fica de facto severamente comprometida a figura do in dubio pro reu, com prejuízo claro para MM Carrilho.

Podemos até levantar outra questão, esta do foro político-partidário: será que se Carrilho fosse um destacado militante do PSD, antigo ministro de governo, com grande visibilidade mediática, o convite seria endereçado a Bárbara Guimarães? Tudo leva a crer que não e isto porque, sempre de acordo com a comunicação social, Marta Leite de Castro, igualmente apresentadora de televisão, não estará a ter vida fácil com o seu marido, Pedro Perestrelo Pinto, chefe de gabinete do actual Ministro dos Negócios Estrangeiros. Os conflitos do casal têm levado à intervenção da PSP e não me consta que Marta fosse convidada para participar nesse simpósio.

Carlos Ademar

 

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