A dimensão alcançada pelo auto denominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante, vulgo ISIS, ao nível da mobilização mundial e com especial enfâse no ocidente, aliada ao clima de vulnerabilidade a que os nossos jovens se encontram expostos, exigem análise e reflexão por parte de responsáveis políticos e administrativos mas não pode deixar de constituir uma preocupação para pais e educadores.

Presentemente, o recrutamento encontra-se subcontratado a angariadores profissionais, muitos deles ocidentais, regiamente remunerados pelo movimento terrorista e que actuam com autênticos headhunter. Segundo Mubin Shaikh, um ex-recrutador Taliban que operou a partir da sua cidade natal, Toronto, até ser identificado, detido e posteriormente passar a cooperar com as autoridades na identificação de outros recrutadores, “os ocidentais estão envolvidos, especialmente em acções de recrutamento e da divulgação, através dos meios de comunicação social, da marca ISIS”.

A ” Dawa jihadista “, chamamento ou convite, recai sobretudo sobre jovens com problemas de integração, oriundos de famílias destruturadas e de minorias étnicas, sendo que a maioria dos recrutas ocidentais são adolescentes com crises de identidade e/ou fraca auto estima, a quem é dada a oportunidade de lutar como homens. O mais curioso e aterrador é que a maioria dos recrutas não tem qualquer vocação religiosa prévia, aderindo apenas pelo facto de poder integrar uma causa.

Os potenciais recrutas são por norma identificados por um mentor jihadista, através de um primeiro contacto on-line, mas existem outras formas de conexão como seminários religiosos, atividades comunitárias ou sessões que podem parecem normais para o ocidental médio, as quais ocorrem em faculdades e escolas secundárias sob a cobertura e muitas vezes aproveitando-se da ingenuidade de grupos de estudantes.

Porém, a principal fonte de recrutamento no ocidente é de facto a média social. Existem fóruns jihadistas onde as informações são trocadas através de software de criptografia avançada. Em sítios tão comuns como o Twitter ou o ask.fm, respondem-se a questões sobre a forma de adesão ao ISIS, numa autêntica versão online “Light” de seminário religioso. A partir do momento em que se sente que o candidato está a ficar envolvido, intensifica-se o processo, despistando eventuais tentativas de infiltração e cativando os simpatizantes. Essas entrevistas decorrem por via de servidores de software de criptografia e proxy, estando identificado o Skype como um instrumento recorrente.

Naturalmente que as redes sociais repudiam qualquer responsabilidade na situação, tendo um porta-voz do Instagram/Facebook declarado que os grupos terroristas, como o ISIS, não são permitidos nos sites. A verdade é que o efectivo controlo é praticamente impossível neste momento, em face da sua dimensão.

Após o recrutamento, prepara-se a partida para um campo de treino, onde se dará início ao processo de formação, que engloba várias semanas de ideologia religiosa e treino físico, seguido de um período de “ribat”, ou vigilância dos infiéis. Concluído o processo de habilitação e superado o treino, o recruta passa a ser membro de pleno direito do ISIS.

Num momento em que a sociedade está particularmente fragilizada, os jovens em geral e os menos favorecidos em particular, encontram-se especialmente recetivos a causas extremistas violentas. Entretanto, os factos ocorridos nas últimas semanas em Portugal permitem uma dupla interpretação. Por um lado parecem constituir um sinal de que algo está a mudar e que o regime de impunidade e irresponsabilidade política e social de determinadas “castas” pode estar a claudicar. Ao mesmo tempo, até pelo deplorável espetáculo mediático associado, concorrem para o clima de descrédito e alienação que se vai apossando dos jovens adultos nacionais, e que ganha contornos de raiva surda.

É fundamental, a bem do Estado de Direito, que se faça Justiça de forma célere e inequívoca, evitando as tentações mediáticas os jogos políticos e os favorecimentos de grupos ou indivíduos. Importa mais do que nunca dar um sinal à sociedade em geral e aos jovens em particular de que Portugal reúne condições para deixar de ser um “local mal frequentado”.
André Inácio

 

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