Cada vez que olho para o mapa da União Europeia (EU) tento encontrar os pontos comuns entre os Estados, para além das fronteiras. Só numa perspectiva histórica sou capaz de achar alguma comunhão, recuando ao domínio da Roma imperial sobre uma vasta Europa seguido do domínio da Roma católica. Sucessivos no tempo, impuseram, por um lado, super-estratos linguísticos e, por outro, fórmulas éticas comportamentais suportadas por ritos religiosos. Dominante, mesmo, é a geografia física e a forma como os povos souberam superá-la. Neles, e por eles, foram construídas culturas veiculadas, em alguns casos, pela língua romana depois de deformada pelos falares locais. Os arranjos políticos, resultado da ganância senhorial, das desavenças religiosas e das guerras devastadoras, foram desenhando os contornos que hoje definem os espaços estaduais. Mas há uma realidade que se sobrepõe à vontade de todas as políticas, de todos os conflitos, de todos os arranjos diplomáticos: a cultura característica de cada Estado, quase sempre determinante de uma nação ou de várias em coabitação difícil.

 

Se o veículo fundamental de uma cultura é a língua, outros há que são quase tão imutáveis quanto aquela. As crenças religiosas estão nesse domínio, mas outros irei referir neste apontamento, tais como velhos hábitos xenófobos, racismos, comportamentos sociais e, até, comportamentos económicos. Olhemos, dentro do quadro europeu, para os que citámos, tentando fugir aos estereótipos.

 

A língua pode ser comum — caso da França, Bélgica e Luxemburgo — e, todavia, haver diferenças abismais nos comportamentos. Assim, sendo um processo de entendimento fácil não é, como pode parecer, absolutamente determinante na cultura. O obstáculo a tal determinação vem da História! Estados com a mesma língua mais facilmente têm em comum elementos de separação do que de união, pois, por trás de um mesmo falar, estão vontades de autonomias políticas, que se tornaram desejos de independência. A hegemonia globalizante do idioma inglês não está a gerar nem semelhanças políticas nem culturais, no mundo. Não chega falar a mesma língua! É necessário que haja uma identidade de interesses para que se verifique uma aproximação cultural.

 

Na Europa há uma clara clivagem entre os Estados culturalmente identificados com a religião católica romana e os de religião chamada protestante. Dir-se-á, estou a calcular, que, cada vez mais, as práticas religiosas estão fora dos confrontos entre os europeus! E, aparentemente, diz-se uma verdade. Contudo, já não é o fervor prosélito o factor determinante dos desentendimentos culturais, mas antes o que resulta de se ter sido criado e educado numa sociedade que tem como suporte uma ou outra prática religiosa. São elementos muito mais subtis do que o frequentar este ou aquele templo ou, até, não frequentar nenhum, que passam para os comportamentos individuais e, destes, para os colectivos. No instante supremo, no momento da grande aflição, no derradeiro sopro entre a vida e a morte, o que, no plano religioso, vem ao encontro do ser humano em desespero são os ritos e as palavras aprendidas na sociedade e, principalmente, na família e no seio materno. Isso é cultura. E isso pode ser elemento de desagregação ou de união. Repare-se no recente exemplo da Jugoslávia e não se alimentem razões para justificar que as comunidades antes pacíficas se tornaram inimigas e agressivas por motivos alheios ou para satisfazer interesses de terceiros. Se não existisse o germe da diferença cultural a chama do ódio com muita mais dificuldade se teria acendido.

 

Na ordem do dia, na Europa, cada vez mais se ateiam velhos conceitos contra os estranhos e diferentes. Basta que a austeridade se imponha aos nativos e de imediato surgem as garras da xenofobia e do racismo, porque a União está pejada de estrangeiros e de “dissemelhantes” e sobre eles recai a fúria dos que, vivendo dificuldades, vêem nesses grupos a culpa do seu mau passadio. E o que foi que falou mais alto? As diferenças culturais. Nelas radicam, também, os comportamentos sociais: um cidadão da Europa do Sul é bastante diferente, não só em questões de pormenor, na sua actuação quotidiana, de um outro da Europa do Norte. E não há transferências “erásmicas” (estou, como se compreende, a referir-me ao programa de mobilidade inter-estadual designado por Erasmus) que colmatem estas diferenciações, mesmo até entre cidadãos de Estados muito próximos. São valores que parecem não ter importância, que surgem só em momentos especiais, mas, nessas alturas, revelam o modo inconsciente como estão subjacentes às aparências. Aconteceu em Agosto de 1914, quando Jean Jaurés apelava a que os operários franceses não pegassem em armas contra os seus semelhantes alemães, e acontece sempre que for necessário. Stalin, quando quis mobilizar contra os exércitos alemães, não invocou a defesa do socialismo, mas sim a mesma entidade a quem os czares atribuíam valores superiores: a mãe Rússia.

É esse cimento que, durante séculos, na Europa, foi unindo os povos à volta de uma História, de uma bandeira, de um rei, de um território, que chamaram seu, de um modo de vida e lhes deu uma identidade pela qual morreram, lutaram e se afirmaram diferentes, é este cimento que a vontade política de uma elite residente nas diferentes capitais, em Bruxelas ou Estrasburgo, não consegue deslaçar em menos de uma centúria! Este cimento criou idiossincrasias, criou culturas nacionais, criou, até, comportamentos económicos distintos, gerando riquezas e misérias explicáveis com base em formas específicas de viver.

 

A União Europeia pode tentar o entendimento comum com base em acordos políticos, financeiros, orçamentais, aduaneiros, económicos, mas nunca poderá ultrapassar a barreira das diferentes culturas individualizadas por tudo o que separou os povos ao longo de séculos. Parafraseando o conceito bíblico, a União Europeia jamais conseguirá juntar aquilo que a História e os homens separaram.

 

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