«Portugal é o criado que vai atrás a apanhar os papéis»

(Clara Ferreira Alves, O Eixo do Mal, SIC Notícias, 01.02.2015)

A revolução gerada pelo golpe militar de 25 de Abril de 1974, que se estendeu por quase todo o ano seguinte, agitou as águas e deixou o Ocidente em polvorosa. Um país pertencente à NATO, de repente passou a ter governos que incluíam ministros que eram dirigentes do PCP, partido alinhado com a mãe de todos os males, a URSS; de repente, as famílias que mandavam nisto tudo, viram os seus bens nacionalizados e acharam por bem pôr-se ao fresco, para paragens mais tranquilas; de repente, as grandes herdades do Alentejo e Ribatejo foram ocupadas pelos trabalhadores e os seus proprietários juntaram os trapinhos e foram andando; de repente, os jornais e a televisão, com a maior facilidade, alcunhavam de «fascistas» quem ousava discordar da linha revolucionária então em marcha.

A confrontação de blocos estava no auge e o Ocidente assustou-se. Não pelo que pudesse acontecer a este cantinho da Europa e à sua gente, mas pelo exemplo altamente negativo, por poder contagiar outros países vizinhos, cujos povos podiam ousar seguir as mesmas pisadas. Aí, as coisas poderiam mexer no equilíbrio Leste/Oeste, em franco desfavor para este lado do mundo. Surgiu assim a teoria da vacina, inventada por Kissinger, Secretário de Estado americano nas administrações de Richard Nixon e de Gerald Ford. Um pedido/conselho – em jeito de ordem -, foi emitido a partir de Washington para todos os países da NATO: nem um cêntimo para esses lusos vermelhuscos, enquanto eles não aprenderem a lição. Aprenderão com os seus erros, e as dificuldades inerentes servirão de exemplo a outros povos, levando-os a não querer seguir por caminhos tão perigosos.

Sabemos como esta história terminou. Kissinger estava enganado. Internamente, a onda vermelha, que parecia querer varrer todo o país, afinal, foi neutralizada e a partir de Novembro de 1975, os sinais começaram a mudar de sentido, a inversão começou a dar-se e rapidamente Portugal voltou a ser o “país amigo”. Os esgares revolucionários foram-se. Ao contrário, deu-se o regresso dos que continuam a mandar nisto tudo, sendo-lhes restituídas as fortunas que, afinal, só transitoriamente mudaram de mão.

Depois, no desejo de bem parecer, fomos longe demais, porque ao longo do tempo sempre nos esforçámos por continuar a ser o bom aluno lambe-botas, ao cumprirmos os ditames que nos levaram a destruir uma frota pesqueira e a abrir as portas do nosso mar a barcos de “países amigos”, a quem passámos a comprar peixe; a destruição de uma estrutura produtiva, designadamente o único alto-forno de que dispúnhamos, para que os produtos produzidos pelos “nossos amigos” se escoassem mais facilmente; vendemos tudo quanto era empresa lucrativa, cujos dividendos poderiam combater o défice e atenuar os inevitáveis prejuízos que outras empresas fundamentais sempre darão, como as empresas de transportes públicos. E assim, lá foram a EDP, a PT, a ANA… enfim, exemplos de empresas que não só em termos económicos, mas estratégicos, nunca deviam deixar de pertencer ao Estado, mas deixaram. Para cúmulo, até a água, esse bem essencial, tem vindo a ser privatizada e, neste momento, em grande parte dos municípios nacionais, já o é, o que roça o imoral.

Tudo isto para dar conta do quanto dóceis temos sido; de uma fidelidade canina, verdadeiros lacaios que nem ousam questionar os desejos do senhor, seja ele quem for. Fazemos sempre o que nos mandam. Aliás, vamos sempre além do que nos é ordenado. Se nos pedem A, nós damos A mais qualquer coisa. Queremos ficar bem vistos pela servidão, como bons alunos lambe-botas que somos, humildemente reconhecidos pelo bem que nos fizeram, ou não, mas sempre humildemente reconhecidos. Agora que a TAP tendia a não dar prejuízo, também se vai embora. Não sobra nada.

No século XV, D. João II, o Príncipe Perfeito – O Homem, como o alcunhou Isabel, a Católica -, ao receber o trono, queixou-se que herdava apenas as estradas de Portugal. Seu pai, D. Afonso V, o Africano, distribuiu terras por tudo quanto mexia e tinha nome, como se disso dependesse a salvação da sua alma. No Portugal de hoje, a situação chegou a tal extremo que até as estradas são das empresas privadas e os portugueses, para nelas circular, têm que pagar, não obstante a altíssima percentagem dos seus rendimentos que vão para impostos – impostos nórdicos, serviços latinos.

D. João II resolveu o assunto à maneira daquele tempo, traduzindo-se, grosso modo, no enfraquecimento da nobreza e no enriquecimento da coroa. Na política externa ousou arrogar-se no direito de dividir o mundo ao meio, reservando para Portugal uma das partes; impôs à jovem Espanha que a linha de separação atlântica passasse mais a Ocidente, o que lhe permitiu assegurar o Brasil, de cuja existência suspeitava, mas cuja descoberta oficial só aconteceria no reinado de D. Manuel. Para Oriente, o objectivo passou a ser a Índia, ignorando a política de conquista de cidades africanas, que havia marcado o reinado de seu pai, que só dava despesa e desbaratava os escassos recursos humanos. Em alternativa à segurança da terra firme e do que era já conhecido, D. João apostou na incerteza do mar e no desconhecido. Foi ainda no seu tempo que Bartolomeu Dias abriu a porta que faltava para atingir a Índia, transformando o Cabo das Tormentas em Cabo da Boa Esperança. Também aqui seria o seu herdeiro, primo e cunhado, D. Manuel, a beneficiar da chegada à Índia, chegada que abriu um novo paradigma nas relações entre o Oriente e o Ocidente.
Não por mera coincidência, os anos em que ousámos, em que arriscámos e não nos limitámos a ser bons alunos lambe-botas, bem pelo contrário, fomos mestres, trouxeram a Portugal o lugar de destaque que jamais o País conheceu na História da Humanidade. Com esta atitude, ainda que apenas os vindouros venham a beneficiar, ganha Portugal.

 

Carlos Ademar

 

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