A luta das mulheres pela igualdade é a prova irrefutável de que a liberdade e os direitos têm que ser conquistados – nunca são concedidos voluntariamente. Não obstante as décadas de luta travada, de onde resultaram tantas mortes que não podemos nem devemos esquecer, no princípio do século XX, pouco havia ainda sido conquistado. Com a excepção de alguns países que cederam no direito de as mulheres ascenderem a estudos superiores, no último quartel do século XIX, e a Nova Zelândia, que em 1893 foi o primeiro país onde as mulheres conquistaram o direito de voto, tudo permanecia na mesma. Por outras palavras, o homem ordenava, a mulher cumpria e neste contexto social generalizado, um punhado de mulheres corajosas dava continuidade à luta das suas antecessoras, luta que vinha desde os primórdios do século XIX e que se foi intensificando à medida que o século da mudança se aproximava – a porta pesada, enferrujada e perra do machismo dominante, dava mostras de não resistir muito mais à pressão a que era sujeita.

O século XX foi de facto o da mudança, porquanto representou uma verdadeira revolução também a este nível. Nas primeiras décadas, os principais países do Ocidente, fruto da luta persistente, acabaram por ceder e as mulheres passaram a ter o direito a votar. Em Portugal, já se sabe, em 1910, o regime republicano impôs-se, com muitas bravas mulheres a apoiá-lo, bravas mulheres que, certamente, não se viram completamente compensadas porque o novo regime, que se dizia paladino das liberdades, agradeceu as bandeiras verdes e rubras que elas bordaram e depois ignorou-as. E se uma se atreveu a usar a sua condição de viúva, aproveitando-se da prerrogativa legal que permitia o voto aos chefes de família e votou, logo os políticos republicanos se apressaram a alterar a letra da lei para deixar bem claro que só os homens podiam votar. Os legisladores republicanos tinham em tão pouca conta as mulheres que ao produzirem a lei eleitoral, nunca lhes passou pela cabeça que uma mulher se pudesse arrogar o papel de chefe de família, mesmo sendo-o, como no caso da famosa viúva e médica Carolina Beatriz Ângelo, que a 28 de Maio de 1911, nas primeiras eleições republicanas, resolveu desafiar a fúria machista em formato legislativo e, com a excepção das finlandesas, que nessa altura já haviam conquistado o direito de voto, transformou-se na primeira europeia a exercer esse mesmo direito cívico. Uma mulher conseguiu votar num universo de homens. É obra.

É claro que tal desaforo não mais voltou a ser permitido enquanto perdurou a Primeira República. Paradoxalmente, só o Estado Novo, numa altura em que as mulheres haviam conquistado já o direito de voto em muitos países, permitiu que em condições muito especificas, as portuguesas letradas pudessem votar e ser eleitas. As primeiras três mulheres puderam sentar-se no Parlamento português, de partido único, na sequência das eleições de 1934. Porém, só com o 25 de Abril a tal porta pesada e enferrujada, se abriu para que todas as mulheres e todos os homens, independentemente da sua condição social e académica, pudessem votar, se o desejassem, podendo optar livremente dentro das diversas possibilidades que os vários partidos concorrentes permitiam. E, estranho, tanto pesava o voto delas como o voto deles.

Com todos os defeitos que podemos apontar ao regime que nos rege, uns mais graves que outros, mas muitos, uma forma de aquilatar o desenvolvimento civilizacional de uma sociedade é tentar perceber como essa mesma sociedade trata a mulher. Nem precisamos de olhar para o mundo islâmico. Em 1970, com a primavera marcelista a ser vista já como a promessa de lufada de ar fresco que nunca o chegou a ser, a taxa de analfabetismo em Portugal ultrapassava os 30% da população. Não se fala de iliteracia, mas de puro analfabetismo. Destes, 75% eram mulheres. Percebemos assim facilmente como o Estado Novo valorizava a mulher. Hoje, com 40 anos de vida em liberdade, o analfabetismo é, podemos dizer, praticamente residual e de há uns anos a esta parte saem das faculdades mais mulheres licenciadas do que homens, com tendência a que este diferencial se acentue cada vez mais.

Como é sabido, mas pode estar esquecido, antes do 25 de Abril estava vedado às mulheres o exercício de algumas profissões, como por exemplo, as magistraturas. Hoje, há mais mulheres magistradas judiciais e do Ministério Público do que homens. Mais, hoje, quem ocupa o lugar de topo da hierarquia no MP é uma mulher. Mais ainda, é uma mulher que ocupa o segundo lugar na estrutura hierárquica do Estado. Concorde-se ou não com a sua postura.

Não gosto de dondocas, independentemente do sexo a que pertencem, mas tenho um enorme respeito pelo género feminino. Nos dias como os que vivemos, com a pobreza de contar os tostões para comer a bater à porta de quase um quarto da população portuguesa e particularmente nos bairros ditos problemáticos, onde tudo isto é elevado à potência, são tradicionalmente elas que arregaçam as mangas, metem as mãos na massa e vão à luta. Os homens desaparecem mais facilmente, vão para a tasca embebedar-se, para a casa da vizinha do fundo da rua, para França, ou ficam, mas desligam-se dos problemas práticos e perdem-se no etéreo. São as mulheres que, com o seu trabalho, a sua energia, a vontade de querer e ser, evitam que os filhos não passem tão mal e tudo fazem para que eles se desviem dos caminhos mais fáceis, mas que tantos problemas podem acarretar. Tudo fazem com a alma plena que vira braços, veias, músculos, mas também rio de águas mansas, que hão-de levar as noites frias e agrestes da amargura e trazer o aconchego em forma de manhãs solarengas e felizes. Quando penso nestas heroínas e em algumas histórias que bem conheço, não posso deixar de me lembrar de Luísa, aquela que o poeta António Gedeão pôs a subir e a descer a Calçada de Carriche. «…chega à oficina à hora marcada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga; toca a sineta na hora aprazada, corre à cantina, volta à toada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga. Regressa a casa é já noite fechada…». Mesmo conhecendo, vale bem a pena a regressar à Luísa. Leiam todo o poema, mas façam-no pausadamente, sentindo cada sílaba e arrepiem-se.

Jean Ferrat construiu uma bela canção tendo por base um poema de Louis Aragon. Em português a canção chama-se «A mulher é o futuro do homem». Percebo as palavras do poeta e não deixando de concordar com elas, atrevo-me a ir mais longe e por aqui me fico: o futuro de que falava Ferrat, que era também o de Aragon, é já hoje e a mulher é o presente do homem.

Que vivam pois, todas as Luísas do mundo; valem ouro!

Carlos Ademar

 

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