By Luís Alves de Fraga

Só há uma maneira de ser político: desejar, por ter vocação, servir o Povo, a Nação. É impensável que alguém queira ser político pela ambição de se tornar uma figura pública, por gostar de exercer o poder e, muito menos, para enriquecer. O desejo de ser político tem de passar pela existência de uma ética – auto-imposta ou socialmente imposta.

Quando, depois de ter feito os meus estudos no Instituto dos Pupilos do Exército, onde a regra comportamental se cruzava com os regulamentos de disciplina militar e as normas de vivência interna, assentei praça, como cadete-aluno, na Academia Militar, um dos primeiros avisos que ouvi aos oficiais instrutores traduziu-se nesta frase singela, que recordo: “Ninguém imagine que vai enriquecer na profissão castrense!».

E era, é, verdade! Ser militar, optar por servir a Pátria nas fileiras das Forças Armadas, é aceitar que se tem vocação para servir a troco de muito pouco! E para aprender isso há escolas próprias: para os postos mais baixos da hierarquia militar, chama-se escola de recruta, ou simplesmente recruta; para os postos intermédios, Escola de Sargentos; para os postos superiores, designa-se por Academia Militar, Academia da Força Aérea e Escola Naval. Nas diferentes escolas aprende-se, com programas de extensão variável, a ética castrense! É por isso que uma vez militar, fica-se militar para sempre.

Os políticos, cuja responsabilidade pública, de formas diferentes, se pode assemelhar à dos militares, não chegando, contudo, à obrigação do supremo sacrifício da vida em prol da sociedade nacional, não têm escola nenhuma de formação! Não têm escola e, por isso, não aprendem a ética da sua actividade, que tem de existir. Os políticos constroem a sua maneira de estar na política através de uma aprendizagem resultante de duas únicas vias: a que lhes impõe a honestidade aprendida no seio familiar e social e a cópia do comportamento dos políticos que lhes servem de padrão moral e cívico.

Eu, depois de concluída a minha formação militar, quis aprender política para a poder estudar, analisar e compreender e, assim, matriculei-me num Instituto – o único – que transmitia, à sua maneira e dentro dos condicionalismos de então, as matérias que me levaram a perceber o fenómeno político. Mas esse Instituto não era, ou não devia ser, uma escola de formação de políticos!

O que se assiste muito, por esse mundo fora e não só aqui em Portugal, é que, com exclusão de alguns partidos onde o sentido de serviço está indissoluvelmente ligado ao tecido social por beber nele a razão da sua existência — os chamados partidos políticos de massas —, todos os políticos “assentam praça” na vida pública em função de valores que só muito raramente se cruzam ou se tocam tangencialmente com a noção de serviço social e nacional. Porque se as motivações fossem semelhantes às dos militares a comunidade política rejeitaria aquele que manchasse a ética comportamental do grupo. O cobarde, o traidor, o homem indigno não tem lugar nas fileiras militares, porque o código de conduta castrense o repele. Mas o político indigno, por não ser um exemplo de idoneidade social e cívica, fica nas fileiras e é-lhe remoçada a face para continuar a servir desonestamente a sociedade que nele acreditou, porque a prática política, cada vez mais, vem aceitando a mentira, consentindo-a. Para eles e para quem neles vota não se aplica a máxima “A Pátria honrai, porque a Pátria vos contempla”.

E das minhas considerações anteriores conclua-se, em relação à actualidade portuguesa e às trafulhices e mentiras que pululam a atmosfera que respiramos, dizia, conclua-se o que cada um for capaz de concluir.

Blogue do autor: FIO DE PRUMO – Luís Fraga

 

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