By Luís Alves de Fraga

Há livros que compramos — pelo menos, eu — por termos, no momento, verdadeira intenção de os ler, mas, ao chegar a casa e ao olhar para o monte dos que foram adquiridos com o mesmo propósito, colocamo-los no sítio certo e aguardamos, com mais ou menos tranquilidade, a altura correcta para entrar dentro do conteúdo que nos atraiu no instante da aquisição.

Claro que há livros, e, para mim, não são poucos, que adquiro, em primeira ou segunda mão, somente para os poder consultar quando tal for preciso. E nem fico com peso na consciência por ter gasto dinheiro com o fim de ter à mão a informação que me valerá no momento oportuno.

No mês de Maio do transacto ano adquiri um livro que, tal como outros, foi para a pilha dos destinados a leitura futura. Tem um título muito sugestivo: Portugal na Queda da Europa e o autor — Viriato Soromenho-Marques — deu-lhe um subtítulo ainda mais apelativo, na minha opinião: “A Europa está em queda, mas ainda não se despedaçou».

Acabei de lê-lo há alguns dias. Fi-lo quase de um fôlego, porque o raciocínio que lhe dá forma, exposto com uma clareza linear, assim mo impôs. Sendo um excelente ensaio de política e de economia, sentiu-o como sentia quando, em jovem, devorava um grosso romance em dois dias e duas noites. Com uma actualidade bem fundamentada, põe a nu os mecanismos da mais profunda inconsciência política e da mais inqualificável falta de rigor técnico dos centros decisórios da União Europeia. Explica como e porquê os Estados europeus, a maioria e, em especial, os que adoptaram a moeda única, se deixaram amarrar à rédea condutora da finança e da política alemã. Deixa-nos antever a queda da Europa dita federal, que de federalismo pouco ou nada tem! Abre uma nesga de esperança quando admite que a União poderá salvar-se se adoptar uma linha de orientação política e económica semelhante à que fez dos Estados Unidos da América (EUA) um exemplo de federação. E é aqui que entro em discordância com o autor. Aqui, e um pouco antes, quando desvaloriza, quase ridicularizando, a questão das profundas diferenças culturais que se pretendem conciliar na União Europeia. Tentarei ser breve nestes dois pontos, até porque, sobre um deles, o segundo, já escrevi, em tempos, uma ou duas páginas que, julgo, estão bem fundamentadas.

A assunção do paradigma de construção da União Federal Europeia com base no modelo dos EUA é, na minha opinião, uma falha do autor e professor destas matérias.

Na verdade, tem de se ir às origens do nascimento dos EUA quando ainda eram uma colónia inglesa e enquanto foram um território em crescimento.

Tal como todas as colónias, também aqueles territórios tornaram-se num pólo de atracção de homens e mulheres de toda a Europa e é necessário perceber o alicerce onde se apoiava (em certas circunstâncias, não continuará a ser tal e qual como vou descrever?) o processo emigratório: a renúncia para sempre à terra de origem para aceitar como destino a aventura da terra para onde se vai. Todavia, se é certo que há um corte sentimental com o rincão de saída não é menos certo que na terra de chegada o imigrante está disposto a mesclar a cultura que transporta com todas as outras que se cruzam nesse local idealizado como terra prometida. O colono guarda a sua origem cultural somente na quantidade necessária que lhe possibilita o entrosamento com outras culturas de outros povos oriundos de outras regiões. Por vezes, as comunidades de proveniência tendem a guardar princípios que lhes recordam a terra de partida, mas têm sempre de abdicar de outros para poderem reconstruir uma vida nova na nova morada. E o tempo encarrega-se de amalgamar a mistura de diferenças, porque há uma esperança num futuro. E é nessa esperança de futuro que se pode encontrar a disponibilidade para a formação de uma federação de Estados.

Como se vê, não é, nem nunca será, esse o “mecanismo” de formação de uma federação na Europa! Para que tal fosse de alguma forma semelhantes havia que deslocalizar grandes massas de populações das suas terras de origem para as enraizar noutras de destino. Ora, esse movimento é impossível na Europa das Nações e dos nacionalismos; na Europa das culturas centenárias separadas, muitas vezes, por guerras com efeitos traumáticos de longa duração. Os Europeus não vão partir para lado nenhum se quiserem construir uma federação! Essa não é a via da “construção” europeia! O modo correcto de amalgamar os Europeus foi aquele pensado pelos Pais fundadores do Mercado Comum: o da abundância para satisfação dos cidadãos, o da partilha e circulação de bens, pessoas e capitais. E tem de ser um processo lento, partindo essencialmente dos cidadãos e nunca das cúpulas políticas.

É este o ponto em que discordo de Soromenho-Marques, pois ele, incompreensivelmente para um professor de Filosofia, despreza as diferenças culturais que dividem os povos. É essa diferença que justifica a existência de violência na Europa tal como justificou a Guerra Civil Americana — a intolerância, o preconceito étnico, o racismo, pesaram muito mais do que as diferenças económicas entre os Estados do Norte e os do Sul da América. Para mim, não ver isto é tapar o sol com a peneira e, por outra via, continuar a sonhar com uma utopia europeísta.

Volte-se ao Mercado Comum e, talvez, a muito longo prazo, possamos imaginar para os nossos netos, quiçá bisnetos, uma União Europeia… mas, até lá, muita água terá de correr para o mar!

Blogue do autor: FIO DE PRUMO – Luís Fraga

 

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