By Luís Alves de Fraga

Portugal pode orgulhar-se de ser um dos poucos países que tem, há muito tempo, um museu de coches reais. Foi D. Amélia, a última rainha de Portugal, quem deu a ideia para o criar. Funcionou, como é sabido, durante muitos anos, no picadeiro do palácio de Belém. Era bastante apreciado pelos estrangeiros que nos visitavam.

Alguém entendeu, depois de se terem desactivado unidades militares, passar o Museu dos Coches para as instalações das oficinas auto do Exército, mesmo em frente da estação dos caminhos-de-ferro de Belém, a poucos metros de distância do palácio, hoje, da Presidência da República. Mas, porque o nosso espírito megalómano não se compaginava com a simples reutilização das infra-estruturas existentes, ainda que fazendo pequenas obras de readaptação, vá de derrubar os edifícios por cujo chão passaram as mais diferentes viaturas auto do Exército, onde se operaram verdadeiros milagres para dar vida a quase moribundos veículos de guerra, e construir um “monstro” que rivaliza em falta de beleza, estética e deselegância com o Centro Cultural de Belém… Cavaco Silva, directa ou indirectamente, deveria deixar ligado o seu nome a essas “bestialidades” arquitectónicas!

Como sobrava espaço, lá vieram, do palácio ducal de Vila Viçosa, mais umas quantas carruagens para compor o “ramalhete” daquilo que foi o parque hipomóvel dos Chefe de Estado, no tempo da Monarquia. Felizmente que a Dr.ª Maria Cavaco Silva não se lembrou de solicitar que se faça o museu dos automóveis da Presidência da República! Onde se iria implantar outro “monstro” para expor os carros – se é que ainda estão guardadas essas velhas raridades! – onde se pavonearam todos os Presidentes?

Se é verdade que tem interesse museológico esta reserva dos coches, também não deixa de ser verdade que é um dos mais extravagantes museus, pois recordam a maior vacuidade de um povo e, acima de tudo, da Casa Real desse povo!

Mas é uma atitude que vai muito a contento dos Portugueses!

Não se espante o leitor com a afirmação! Ora veja que o meio de transporte dos nossos compatriotas sempre foi o espelho da sua vaidade e, também, da sua miséria! Miséria, está claro! Pode não haver grande quantidade de pão para pôr na mesa, mas na rua, à porta de casa, lá tem de estar o automóvel, se possível de uma marca que encha de inveja o olho dos vizinhos, mesmo que já tenha uns anos de uso! Não interessa! É um bom carro, que ainda anda e dá para criar estatuto entre quem o vê! Ora, esta é e foi a realidade de sempre em Portugal. A velha aristocracia podia não ter no solar de família mobiliário para compor a casa e dar-lhe conforto, mas tinha de ter boleeiro vestido a rigor e carruagem, de preferência, com brasão de armas pintado nas portas, mesmo que os animais de tiro apresentassem ar de quem passa fome de toda a forma e feitio.

Estatuto! Estatuto, meus senhores, é tudo o que mais precisamos, mesmo que as indústrias definhem e os campos estejam entregues às estevas e a toda a casta de ervas daninhas! Por isso, no tempo das “vacas gordas” da CEE, entre investir para criar riqueza e motorizar-se a rigor, optava-se por comprar carros de alta gama e cilindrada!

Este Museu dos Coches é, por conseguinte, o retrato dos Portugueses: miséria nos cofres do Estado, carência de prosperidade produtiva, mas espavento para mostrar o espavento de outros tempos! Mostrar a talha dourada do coche de D. João V ou o coche onde D. Manuel mandou a Roma a mais esplendorosa embaixada para impressionar o Papa com as riquezas do Oriente.

Ah, mas, como que, para uns, um rebate de consciência e, para outros, o dedo acusador de uma perfídia, lá está também o “landau” onde um valente republicano, sabendo que vendia cara a vida, pôs termo à vida do penúltimo rei de Portugal e do seu filho primogénito! É o gosto tão nacional pelo melodrama!

E nós continuamos a viver um programa de austeridade imposto pela União Europeia, o mesmo é dizer, por Berlim e o seu ministro das Finanças. Nem à chibatada deixamos de ser iguais a nós mesmos!

Blogue do autor: FIO DE PRUMO – Luís Fraga

 

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