By Tereza Braga

Bicudo: aonde é que ele foi parar?


[OBS deste blog ‘democracia&política‘: o medo de Lula por parte da elite tem toda a razão de ser. Ela teme não recuperar em 2018 os privilégios e a tradicional impunidade que gozava nos governos da direita.

Por exemplo, o PSDB/FHC implantou a CPMF em 1997 e ela vigorou tranquila por muitos anos, sem grandes reclamações da elite e sua mídia. Porém, no governo Lula, a elite rica e sonegadora percebeu que estava em grande perigo. Por meio da CPMF, o governo estava rastreando a movimentação financeira de enormes somas não declaradas à Receita Federal e até por pessoas antes desconhecidas que se enquadravam como pobres, isentas de impostos. Esses, provavelmente, traficantes ou laranjas de empresários e aplicadores no mercado financeiro. Isso, nos governos PSDB/FHC não preocupava, pois os sonegadores da “Casa Grande” sabiam que estavam blindados, inimputáveis. Com a ascensão do PT, temerosos, tentaram não permitir a reeleição de Lula e houve avassaladora campanha da mídia, FIESP, FIRJAN, PSDB, DEM, PPS para a extinção daquela ínfima contribuição financeira. Os grandes sonegadores venceram, e a CPMF foi extinta em 2007. Na semana passada, Dilma quase caiu, somente por pensar em reimplantar aquele imposto delator, “dedo duro”.


Esse é somente um exemplo, dentre os milhares de tradicionais privilégios e blindagens da elite, que ela está apavorada de não recuperar, com um futuro governo Lula. No governo Dilma, a uníssona campanha da mídia, da oposição e da Justiça tem conseguido manter a presidente relativamente acuada, sob controle, cedendo às determinações da direita, do “mercado”.


Portanto, esse temor de Lula pela “Casa Grande” é perfeitamente compreensível].

Lula é quem mais inquieta a Casa Grande

O portal “Conversa Afiada” reproduz editorial de Mino Carta [na revista “CartaCapital”]:

SÓ MESMO POR AQUI

É fato inédito que a mídia em bloco atire contra um líder para impedir, ou enfraquecer, sua eventual candidatura 3 anos depois

Em qual país do mundo civilizado e democrático, a mídia, praticamente em bloco, se uniria para envolver um importante líder político em um escândalo das proporções da Lava Jato? Sem serem convocados, os meus botões assumem a cadência do coro grego e declamam: não há país democrático e civilizado em que um fenômeno desse porte pudesse verificar-se.

Colhido de surpresa, argumento: mas é o que acontece no Brasil neste exato instante. Retrucam: e haveria como comparar o Brasil com países como Grã-Bretanha, França, Estados Unidos, Alemanha etcétera? Cabisbaixo, silencio. O coro grego insiste: a mídia nativa porta-se qual fosse a própria oposição, igual a um partido disposto, para alcançar seu alvo, a forjar pretensas provas. A inventar, omitir, mentir.

Provoco: e a reportagem de capa da revista “Época” da semana passada? Diz que o ex-presidente Lula intermediou negócios da Odebrecht em Cuba. Até apresentam documentos secretos… Patética reportagem, decreta o coro, embora tenha assumido o tom da velha tia. Revelam-se informados, de todo modo, a respeito do assunto. A chefe de Comércio Exterior do BNDES, Luciene Ferreira Monteiro Machado – dizem pausadamente – esclarece que o financiamento do banco às obras do porto cubano de Mariel já estavam em andamento antes da viagem de Lula a Cuba em 2011, à qual “Época” se refere. Acrescenta dona Luciene: qualquer pressão do ex-presidente seria impossível, porque os contratos necessitam da aprovação de diversas equipes e comitês do BNDES.

Estranho, comento: João Roberto Marinho foi a Brasília para garantir que a “Globo” quer, de alguma forma, acalmar os ânimos, e até o “Jornal Nacional” baixou a bola. E eis que “Época”, semanal global se sai com essa capa, e além disso, para o horror dos seus leitores, revela que “Dilma é amiga de Cuba”. Ora, ora, intervêm os botões, o problema Dilma não é o problema Lula, e esse, na perspectiva, é muito mais inquietante.

O objetivo de envolver Lula na Lava Jato, ou em outro escândalo qualquer, tornou-se obsessão febril. Um caso patológico, define o coro, de volta à cadência inicial. O motivo é do conhecimento até do mundo mineral: pretende-se, se não inviabilizar, ao menos enfraquecer uma candidatura do ex-presidente em 2018. Vara curta: pela primeira vez em cinco anos longe da Presidência, Lula admite a possibilidade da sua candidatura ao próximo pleito. Se for para impedir uma ascensão tucana.

Quem ganha espaço na mídia, cedido com simpatia e apreço, é um ex-petista de “denominação de origem controlada e garantida”, o veterano Hélio Bicudo. Salvo melhor juízo, desinteressado da conciliação em andamento, renova a ideia do impeachment de Dilma Rousseff por “crime de responsabilidade”.

Aos meus olhos, a postura de Bicudo configura uma situação peculiar. Na minha mocidade, enxergava nele um conservador, sem, com isso, experimentar irritação. Tempos de ditadura, ele exerceu com honra o papel de tribuno contra os esquadrões da morte. Logo tornou-se petista no começo dos anos 80 ao fazer profissão de fé esquerdista. Não duvidei da sua sinceridade.

Ao longo da existência, sempre desprezei quem começa à esquerda e descamba para a direita, a par de que trafega pela vida com o propósito de amealhar fortuna. Ao abandonar o PT à época do chamado “mensalão”, Bicudo deu crédito a acusações em boa parte mal formuladas e inequivocamente hipócritas, mas seu gesto poderia ter sido ditado por um impulso moral.

Agora não me arrisco a insinuar que Bicudo guinou mais uma vez. Não deixo, porém, de apontar para uma situação nova em relação à minha resistente ojeriza. Começou à direita, foi para a esquerda e não se entende onde acabou.”

FONTE: editorial de Mino Carta na revista “CartaCapital”. Transcrito no portal “Conversa Afiada” (http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2015/09/04/mino-lula-e-quem-mais-inquieta-a-casa-grande/).

Blogue do autor: Democracia Política

 

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